sábado, 15 de fevereiro de 2020

 A descendência dos

Crispin
de Modbury, South Devon no 
Algarve



De Diogo Frederico Barr Crispin e dos seus 14 filhos descendem os Inglês Esquível, (e Esquível Freire de Andrade), os Inglês do O’Ramos, os Inglês Baião do Nascimento, os Pereira de Mattos Cúmano (de Bivar Cúmano, de João António Júdice Fialho, de Bivar Gomes da Costa Weinholtz), assim como de Maria Efigénia e de Francisco José Córtes Crispin, e respetiva descendência, que tiveram a sua origem em Modbury, condado de Devon, no Sudoeste de Inglaterra. 

Diz-se, porém, que este apelido, Crispin, provém do continente europeu em tempos da conquista normanda da Inglaterra [1].

Nota: A bibliografia, por questões de leitura, vai tanto mais próxima do texto quanto possível para que possa ser consultada mais facilmente.



                       

[1] Para mais informação, leia-se aqui.

Sobre Modbury, condado de Devon, Sudoeste de Inglaterra, [2]

A pista para as origens de Modbury está no nome saxão Moot Burgh, pois moot significa local de encontro, especialmente para um tribunal de justiça, e também para uma posição facilmente defensável. Também tinha um porto, um foral para celebrar feira, e um edil cuja função era supervisionar todas as transações no início do Séc. X.

Um burguês, um possuidor de terra da freguesia, gozava de certos privilégios, como por exemplo não pagar impostos na feira de São Jorge instituída pelo Bispo de Exeter em 1310 e que durava nove dias, nem pesar mercadorias no padrão da povoação. Os proprietários eram também eleitos para participar do governo da cidade, além de que os seus terrenos eram isentos de dízimo. Quando Yves, Vigário de Modbury, em 1250, deu terrenos aos monges, estes também desfrutaram desses privilégios. 

A abertura da Feira de Modbury era anunciada pela proclamação da Carta de Eduardo III feita pelo Portreeve e pelo içamento de uma luva decorada com flores por cima do Sino da Cidade, em cima da antiga Bell Inn, na Broad Street (rua principal) ainda existente nos dias de hoje. Originalmente, a cerimónia simbolizava o direito dos paroquianos da povoação ao livre comércio.

As ruas principais da povoação, outrora pavimentadas com paralelepípedos, tinham um canal de drenagem que descia pelo centro de cada uma das ruas. Como três dessas ruas são íngremes, toda a água e detritos acabavam por chegar aos dois riachos, que se uniram num, perto de Poundwell. Os problemas que isso criou aparecem repetidamente nos Livros de Actas do século 18, nos quais se refere: "limpar o riacho em Galloping Street e Poundwell", "transportar o lixo retirado do riacho" e "arranjar a eclusa do riacho de Tucker". 

Existia uma assembleia denominada – Leet – que decidia da vida do burgo e no qual tinham assento todos os que tinham meios de negócio e propriedade, e eram livres. Reuniam-se três vezes por ano e era composta por doze a vinte e três membros. A partir do Séc. XVIII, à medida que novas instituições jurídicas e judiciais foram sendo criadas, o Leet foi perdendo importância. O líder do Leet tinha o nome de Portreeve que seria o equivalente ao Alcaide do castelo no nosso país. As suas funções principais como líder da povoação eram a supervisão do mercado, do porto fluvial e da justiça.

Houve dois episódios da guerra civil no Condado de Devon em 1642 e 1643 nos quais a povoação de Modbury esteve envolvida. Esta guerra opunha os partidários realistas de Carlos I contra os reformistas de Oliver Cromwel. A população de Modbury era maioritariamente pró-realista e os homens que incorporaram o exército acabaram sendo desbaratados sendo Modbury ocupado pelos reformistas, a igreja saqueada e usada como estábulo para cavalos. Cessaram as festas começou a austeridade. 




Rua da Igreja, Church Str., Modbury, Devon, meados do Séc. XIX. As casas eram originalmente de dois andares, algumas com os andares superiores projetados para diante sobre colunas ou pilares. Esta foto mostra o período de transição quando as fachadas e os acrescentos estavam a ser feitos.

(Crédito da foto http://modbury-heritage.co.uk/.)



Durante o século XVII, os comerciantes da cidade cresceram em importância, exercendo considerável influência sendo que os tecelões de algodão ocuparam um lugar de destaque. Modbury alcançou um novo pico de prosperidade no final do século XVIII com o desenvolvimento da tecelagem da sarja. Por ser uma produção doméstica, poucas evidências deixou hoje da era industrial, exceto na medida em que as casas estilo georgianas e estilo regência, nas ruas principais, são evidentemente casas resultado da prosperidade comercial em oposição às de uma povoação modesta.

Dessa época áurea sabe-se da existência de sete azenhas de rio que só trabalhavam temporariamente durante o dia por falta de caudal das duas ribeiras que circundavam a povoação, as ribeiras Shilston e Aylestone. Para obviar à falta de caudal deixavam acumular a água a montante de cada azenha e essa mesma água alimentava o reservatório seguinte que fazia rodar a seguinte azenha e assim por diante. Algumas só deixaram de funcionar no Séc. XX e todas serviam a moagem de grão.

As mudanças sociais no século XVIII tiveram consequências no aspeto da povoação. Foi provavelmente durante este século que ficou definido o atual plano das ruas. Antes do século XVIII, haviam fileiras de pequenas casas ou quintas fazendo ângulo reto com as ruas atuais, com uma ampla área usada para mercado no cruzamento principal no centro da povoação, à volta do mercado de carne (imagem à esquerda) e do mercado de lanifícios (imagem à direita). Casas novas e mais opulentas foram erguidas ao longo da rua, incorporando as casas mais antigas na parte de trás e bloqueando os becos antigos. Estes edifícios foram adaptados das velhas habitações domésticas e, por vezes, de oficinas ou postos de venda, geralmente com alojamento incorporado.

Mercado de carne e de lanifícios em Modbury


Em 1801, a população de Modbury era de 1813 pessoas, com 882 pessoas empregadas no comércio de lã. 

Os apelidos de família nos assentos paroquiais de Modbury para os anos 1601-1610 são os mesmos de famílias residentes em Modbury nos dias de hoje. Curiosamente, os nomes próprios durante o mesmo período mostram a popularidade de John, um claro favorito, seguido por William, Thomas, Richard, Henry e Nicholas. Nomes femininos durante essa década foram liderados por Joan (geralmente soletrado Johan), depois Mary, Elizabeth, Agnes e Margery.

[2]  Resumo e tradução de alguns textos retirados de http://modbury-heritage.co.uk/ cujos autores foram: Nancy Savery, Phil Andrews, Don Masters, Nobby Clegg, Mary Rose Rogers e Anne Scarratt.


A saída da Inglaterra

Nada se sabe da razão que levou William Crispin a sair do Condado de Devon e ter vindo para o Algarve. 

Em Inglaterra, Carlos II, sucessor dos Cromwell, casou com Catarina de Bragança que foi Rainha de Inglaterra até à morte do rei em 1685. Sendo católica, foi centro de muitas conspirações com fundo religioso durante o reinado do marido que criaram muitos conflitos em Inglaterra. 

Na viragem do Séc. XVII para o Séc. XVIII vivem-se contínuas dissensões entre pró-católicos favoráveis ao Rei Jaime II, Stuart, ou os partidários da Igreja de Inglaterra ou protestantes favoráveis à subida ao trono da sua filha Maria casada com Guilherme de Orange. Após estes, reinou a Rainha Ana, irmã de Maria, e após esta, sem filhos sobreviventes, sucedeu ao trono Jorge I primeiro rei da Casa de Hanover. 

Depois de enviuvar, sem filhos, e com o amparo dos futuros reis Stuart, Jaime e a rainha Ana, Catarina de Bragança voltou a Portugal só em 1692, para servir como tutora do sobrinho, o futuro D. João V. Morreu na Bemposta e foi enterrada em São Vicente de Fora.

Igreja de São Jorge em Modbury (Google)

Razões da saída
Será que houve alguma ligação directa pelo facto da Rainha de Inglaterra ser Portuguesa? Provavelmente não. Mas indireta houve com certeza. O facto de no dote de Catarina de Bragança terem sido incluídas as Sete Ilhas de Bombaim (atual Mumbai) e estas terem sido dadas de renda à Companhia das Índias Orientais abriu as portas do comércio internacional no Oriente à Inglaterra onde os portugueses monopolizavam. 

A tradição de haver comunidades de comerciantes ingleses em terras portuguesas para salvaguardar o comércio com Portugal vinha de longe. O facto de ter ocorrido um terremoto em 1755 pode ter criado oportunidades de comércio deixadas em aberto pela falência de outras empresas que perderam todos os seus haveres nos incêndios e derrocadas ocorridos. 

Com a subida ao trono do Jorge I, protestante e primo segundo da Rainha Ana, afastando assim do trono as linhas católicas mais directas, houve mais insatisfação dos partidários de Jaime III, católico e Stuart candidato ao trono. Entretanto, Jorge I promulgou o Oath Act de 1723 (Lei de juramento de fidelidade ao Rei) ao mesmo tempo que implementava um tributo a todos os católicos – The Walpole Levy. Ou assinavam o juramento de fidelidade nos Oath Rolls até ao fim de 1723 ou até Março do ano seguinte tinham que apresentar a relação de bens para serem tributados. Só os católicos que não assinavam o juramento o tinham que fazer. 

Curiosamente, e para o Condado de Devon, são referidos um William Crispin e um John Crispin nos Oath rolls com a identificação de pertencerem a Modbury.

Foi feito um juramento nas salas do matadouro, Câmara do matadouro, em Modbury, a 30 de Agosto de 1723, na presença de James Bulteel, William Gilbert e Thomas Coplestone, esquires. Aparece o nome de William Crispin [Ass.] de Modbury e o the John Chrispin [Ass.] de Newton Ferres (lugar onde foi casar William)[3]; e num outro juramento feito em Plympton St. Mary, a 2 de setembro de 1723 perante John Rogers Bart e Thomas Coplestone, um Nicholas Crispin, [Marca], de Newton Ferres[4]

[3] Devon and Exeter Oath Rolls, 1723, QS17/2/1/12a, http://www.foda.org.uk/oaths/QS17/2/1/12a.htm [4] Devon and Exeter Oath Rolls, 1723, QS17/2/2/2a, http://www.foda.org.uk/oaths/QS17/2/2/2a.htm

As mudanças sociais decorrentes das alterações industriais ocorridas com a introdução da lançadeira voadora e dos teares semimecânicos que muito tarde chegaram a Devon fizeram o Condado de Devon perder a corrida comercial face a outras zonas inglesas mais empreendedoras. Ao facto de associada à produção da sarja existirem todos os postos de trabalho criados à volta desta produção, há que acrescentar o facto de que Modbury levava a indústria um passo mais à frente da concorrência produzindo as peças de roupa já pronta, ou cortes de roupa, a serem compradas pelos consumidores com pequenas alterações garantindo assim o valor acrescentado recolhido entre produtor e consumidor. A melhoria das linhas de comunicação entre o Sudoeste de Inglaterra e Londres facilitou a introdução de produto acabado, cortes de roupa, nos super mercados e armazéns londrinos com excelente facilidade de escoamento para os quatro cantos do mundo. 


A compra de tecidos e principalmente cortes de roupa em Portugal nesta época, que ocorria principalmente nas grandes feiras das povoações vilas e cidades do reino do Algarve, coincide com o facto de Portugal quase não produzir roupa de qualidade para além do burel usado pelas classes mais baixas. A nova burguesia e classes altas portuguesas usavam e necessitavam de tecidos ingleses de melhor qualidade, a sarja por exemplo. A contrapartida, no Porto, era o vinho, e no Algarve os frutos secos, as laranjas e o azeite de que Inglaterra era deficiente.


Os interesses comerciais ingleses aumentaram exponencialmente havendo a necessidade de estabelecimento de “defensores” dos interesses ingleses em todos os locais pertinentes quer para o comércio quer para os interesses estratégicos face à necessidade de apoio das comunidades inglesas nos países estrangeiros. Portugal não ficou excluído antes pelo contrário. Há muito tempo que havia em Lisboa um cônsul Inglês e a representação comercial e diplomática estendeu-se ao Porto com outro cônsul e a Faro com um vice‑cônsul.

Este e seguintes gráficos por João Luís Esquível baseado na informação publicada por Crespo, Maria Elvira Faustino, A Economia Marítima do Algarve na segunda metade do século XVIII, Lisboa, original dactilografado com 269 páginas. (P. 114, 119, quadros 21, 22, 29 e 33.)

Em 1651 o reduzido trato internacional do porto de Faro estava quase todo nas mãos do inglês Henrique Janson o qual manterá importante casa comercial até 1675. Vão chegando outros mercadores como por exemplo Filipe Melhor[1] que em 1672 será o cônsul dos ingleses em Faro que desempenha funções até 1684. Nesse ano é Samuel Small quem defende os interesses ingleses em Faro mas nunca deixando de haver tensões derivadas das convicções religiosas anglicanas. É o caso da denúncia feita em 1687 no Tribunal de Évora: “Hoje se me veo dar huma denunciação de hum homem que aquy veo em um navio de Londres a trazer fazendas, e fazer carga de azeites que juntamente a fez cõ hum Lopo Roiz mercador nesta cidade christão novo por tal tido, natural das partes da Beira, em cuja caza esta o denunciado.”[2](…) “Também em 1651 chegou a Faro, de Londres, ‘Jan Parcher por mercador o qual fica e está morador em Tavira’.[3] É provável que dele descenda a estirpe dos Parcar (Parker) de que será primeiro o ilustre D. João Parcar, já natural de Faro, casado aí com D. Maria Camacha da Silva[4], cônsul dos ingleses de 1715[5] a 1718. Estará à frente de grande casa comercial de 1712 a 1736. Filho ou neto desse João Parcar[6] será Dona Luísa Isabel Narcisa Parcar Pessinga Portugal que celebrará núpcias com João Guterres Pinto Leote de Lagos, em 1756. Mas essa é outra história.
[1] TT, I.E., Livro de Visitas a navios, Faro, 1618-1657, 1662-1683, 16841727 e 1727-1764 e Biblioteca da Alfândega de Lisboa, Registo de Visitas a embarcações, Faro, 12-1 a 12-4.
[2] TT, I.E. Caderno do Promotor, n.º 30, fl. 494.
[3] TT I.E., Livro de Visitas a navios, Faro, 1618-1667, fl. 85.
[4] Há um assento de batismo em que os óleos são postos a 20 de Maio e 1714, de um João, filho de João Parcha (Parker) e de Maria Camacha, o dito João Parcha natural da cidade de Londres, sendo padrinho o capitão João de Sousa. A criança foi batizada em casa pelo padre Cristóvão Camacho. ANTT, Faro, São Pedro, B-3-84v. imagem 85.
[5] Black, Jeremy, Britrish Diplomats and Diplomacy, (1688-1800), University of Exeter Press, Exeter, Inglaterra, 2001, p. 139.
[6] Em 1736 está à frente de importante casa comercial, pois casara com uma filha de D. João Parcar [Parker] – Este em Faro desde 1712 (suspeito a família em Tavira desde cerca de 1650). A viúva de D. Samuel Pitt, que por sua vez tomará conta dos negócios em 1749, chama-se D. Maria Pitts Parcar. Esta família dará cónegos para a Sé, sem que a sua casa comercial se extinga. A D. Maria sucederá seu filho Pedro Pitts Parcar, a quem em 1763, um novo sócio (e genro) João Keating se junta. Cristóvão Parcar, cónego da Sé renunciará o seu canonicato em seu sobrinho Samuel Pitts Parcar. Romero Magalhães, citado no Geneall # 238901. Habilitou-se à Ordem do Evangelho em 1739 e era filho de D. João Parcar e de D. Maria Camacha Arquivo de Évora, Maço 45, n.º 393.

Transcrevemos agora um texto datado de 1774 escrito pelo Bacharel José Viegas de Andrade, como Auditor do Regimento de Lagos, pelo colorido que aporta à vida da família Crispin e doutras em Faro e que conta que “Os comerciantes inglezes estabelecidos em Faro, os que carregão parte dos frutos dos Algarve, e muito por Comissão huma grandíssima, e muito poucos por sua conta e risco, he a mesma comissão a sinco por cento, sem que nacional algum tenha comissão de carregar navios de naçõens estrangeiras, enteressando-se os comerciantes inglezes de Faro maes neste negócio que na exportação por sua conta. João Lamprier tem no Algarve comissários que comprão para ele todos os fructos em que a sua casa faz comercio. Tem barcos e carros seus com que faz o transporte dos frutos para os seus armazens, praticando estes, e outros meyos de enteresses, afim ainda de fazer aquelles que pertencem às occupaçõens e trabalhos dos nacionais.
Bergantim inglês com a cruz de São Jorge. Tipo de barco 
usado pelos ingleses de Faro na carreira do norte da Europa.

Tem esta caza navios, que em Faro carregão os fructos do Algarve, e fazem para a mesma caza enteresses dos grandes fretes, e retornos para o comercio della. Este comerciante se enteressa nas rendas publicas a fim de milhor e mais livremente praticar as ideias do seu negócio. 
Elle he o que no Algarve tem na mão a reputação, e exportação dos seus frutctos, e a importação da mayor parte dos generos de que carece o Algarve. O respeito e ascendente deste comerciante, e a dependencia que delle há no Algarve obrigão a obsequias e submissões humilhantes, e servis, bastando somente o nome de – Lamprier – para impor respeito e influir veneração[1]

[1] Citado a página 299, nota 270, in Magalhães, Joaquim Romero de, O Algarve na época Moderna, Miunças 2, Coimbra, 2012.



Viegas de Andrade continua a pintar o quadro do comércio inglês em Faro: Um outro subdito é alvo das acusações do mesmo bacharel “João Crispin [sénior, o nosso!] comerciante inglês morador na cidade de Faro tem ahi huma loge [loja] de retalho, vendendo todas as fazendas della por miúdo a covado, e trás a referida loge pelas feiras do Algarve da mesma sorte que qualquer português daquella profição. Esta loge sempre tem mayor consumo de fazendas do que aquellas loges dos mercadores nacionaes, tanto na cidade, como nas feiras, porque João Crispin sendo segunda mão, recebendo as fazendas de seus remetentes por partidas, e fazendo o mesmo comercio que Lamprier, pode por preço maes barato vender por miudo do que qualquer mercador que lhas compra com dinheiro à vista, ou a pagamento. Nas feiras, Crispin faz mayor quantidade de vendas que os portuguezes, e grandíssima a teve na feira de Sylves no ano de 1773. Aos inglezes somente pelo Tractado de Comercio e de Negociação do mês de Dezembro de 1703, he permettida a introdução nestes Reinos das fazendas de lã no mesmo pé em que estavão antes das suas prohibiçones, e não venderem‑nas por miudo, como os mercadores de retalho portuguezes, que tem particulares estatutos confirmados e mandados guardar por Alvará de 16 de Dezembro de 1757. João Lamprier tinha outra semilhante loge que largou em 1771 a hum mercador de Faro chamado João Francisco.[1] (…) Continuam a haver alguns estrangeiros em Faro, como o sueco Bar Avent ou mesmo, a este associado, João Crispin, inglês”. Na viragem do século, inícios do Séc. XVIII, “crescem e aparecem mercadores portugueses como João Francisco de Macedo ou Manuel José Gomes da Costa".[2] Continuando… 

[1] Citado a página 300, nota 272 in Coleção Alberto Iria, Bacharel José Viegas de Andrade, Suplemento…, fls 26v.-37.
[2] Crespo, Maria Elvira Faustino, A Economia Marítima do Algarve na segunda metade do século XVIII, Lisboa, original dactilografado com 269 páginas. (Páginas 114 e 119, Quadros 21, 22, 29 e 33.)




Antes da Paz Geral (Tratado de Paris entre a França e os países da 6.ª coligação), no ano de 1814, a grande maioria dos cônsules britânicos em comissão da Coroa britânica eram mercadores nos respectivos lugares de residência. Muitos desses cônsules não tinham salário do Governo. Os seus emolumentos consistiam em taxas aplicadas sobre a tonelagem dos barcos britânicos e sobre as respectivas cargas. Devido a abusos e a queixas dos comerciantes foi passado um Acto de Parlamento em 1826 pelo qual foram proibidas as taxas nos barcos e cargas e providenciadas remunerações para os Cônsules nomeados para defenderem os interesses da coroa britânica segundo o qual “os Cônsules Britânicos não deveriam nunca estar envolvidos directamente ou indirectamente com empreendimentos comerciais”. No entanto com o Act of Parliament de 1832 houve uma reviravolta na política externa e foram feitas reduções nos salários dos cônsules e vice-cônsules invertendo-se as linhas mestras de restrições. Assim aos cônsules “era permitido estarem envolvidos em empreendimentos comerciais”. Assim, o princípio estabelecido em 1826 foi invertido e a restrição deixou de ser uma exceção para passar a ser uma regra. Em 1838 a John Crispin júnior, o cônsul do Porto, era permitido que fizesse comércio mas é o único que, nas listagens, tem a referência em como não o pratica[1].
Como termo de comparação no mesmo período que acima se refere para a sociedade Avent & Crispin, a Casa Lamprière recebeu 423 barcos, sendo que os portos de origem mais frequentes eram os portos algarvios (só até 1769 com 184 barcos), Holanda (68 barcos), Inglaterra (48), Espanha (34), Lisboa (34), Gibralter (27) e os restantes 28 de diversos portos em pequenas quantidades.
[1] Accounts and Papers: Twenty-one Volumes, Trade and Navigation. Grain, Cotton, Glass, Hemp, Iron, Postage, Wollen goods, etc, etc, Sessão e 5 de Fevereiro a 27 de Agosto de 1839, Vol. XLVI de 1839, p. 2‑3.

Parte I - A ascendência Crispin


É possível que o nosso ramo venha desta sequência de casamentos.

· William Crispin, b. 28Jan1656, Holbeton, Devon, c. 1691 cc. Suzanne West, entre outros;

· William Crispin, b. 16Jun1694, Modbury, cc. Mary Martin, em 17Jul1719, entre outros 

· William Crispin, n. Newton Ferrers em Set1725. Passou a Portugal, onde foi Vice-Cônsul, em Faro. cc. Mary Barr, n. Waterford, Irlanda, entre outros [Holy Cross Church] 

· William Barr Crispin, n. Modbury, Vice-Cônsul em Faro, cc. Mary Victória Walsh


Os Crispin de Newton Ferrers

William Crispin, n. 16Jun1694 casou-se com Marey (às vezes Mary) Martin em Newton Ferrers a 11 de Julho de 1719. Tiveram em Newton Ferrers: 

1) Marey Crispin, n. 24 de Outubro de 1719
2) Elizabeth, n. a 25 de Dezembro de 1721
3) Abraham Crispin, n. 2 de Maio de 1724 (um falecido em 1741 em Devon)
4) William Crispen, Setembro de 1725 à ???
5) Elizabeth Crispin, n. 22 de Setembro de 1728
6) Abraham, n. 23 de Janeiro de 1731*
7) Benjamin Crispin, n. 1 de Janeiro de 1734


*Aparece um registo de um testamento em nome de Abraham Crespin, de Newton Ferres, Devon, como capitão da H. M. Royal Navy em 1786. (https://www.genuki.org.uk/big/eng/DEV/DevonWillsProject/DWP-Cos-Cy)

Estes não aparecem referidos em nenhuns documentos dos arquivos da família e servem como arranque de informação de início de investigação.



É possível que antes das datas que agora se apresentam tenham havido mais gerações nas paróquias do Condado de Devon, próximas de Modbury. Conforme se disse anteriormente, a popularidade dos nomes próprios destas listagens não ajudam a conseguir destrinçar quem é quem no meio desta gente. Mas mesmo assim continuamos a tentar.


É provável que seja do n.º 4, William Crispen, que descendamos, e também é provável que tenha sido ele que casou na Irlanda com Mary Barr. Não podem estar muito longe no que respeita às gerações pois temos o exemplo de um dos testamentos feito em Faro ter sido tirada cópia dos arquivos da Irlanda em inglês o que por si só infere que havia “interesses” económicos ou familiares de Faro na Irlanda.

Assinatura de William Crispin, Faro, 1751, gentilmente cedida por Luís Bivar de Azevedo, Junho 2018.



É provável que a ligação à família Barr se tenha concretizado ou na Irlanda ou em Faro. Se a família Barr se foi instalar em Faro e o William Crispin e família também, é provável que tenham casado no Algarve. Como eram ambos de confissão Anglicana, os assentos não ficaram registados nos livros de assentos católicos das paróquias de Faro, principalmente na de São Pedro por onde sempre viveram os Crispin de Faro. Situações similares aconteceram em Lisboa onde havia um registo específico, a Capelania da Factory, onde eram registados casamentos e baptizados de confissão Anglicana em Lisboa (1721‑1807). Se houve uma similar para Faro, ainda não foi encontrada.

O que se sabe sobre o lado da família Barr em Faro?

Uma das notícias mais antigas que se conhecem da existência dos Barr em Faro é uma pequena carta escrita por José Barr para o Whitehall Evening Post relatando notícias do que se passou no dia 1 de Novembro de 1755 e, como se pode ver, ainda não eram conhecidas notícias sobre o que se tinha passado em Lisboa nem noutras localidades do reino de Portugal. A missiva deve ter sido enviada no próprio dia usando como correio um dos barcos ingleses que tinham ligações regulares entre Gibraltar e Londres com escala em Faro. 


O Almirantado inglês contratou com a companhia de Falmouth Packets[1], (barcos correio à vela), e iniciou uma rota entre Falmouth e Lisboa a partir de 1702 cujo objectivo era o transporte de correspondência das embaixadas e consulados, de notícias, de passageiros e às vezes cargas particulares e que saía todas as 3.ª feiras e a viagem tinha uma duração média de 28 dias e saía de volta de Lisboa aos Domingos.[2] Essa linha regular estendeu‑se posteriormente a Gibraltar e Malta em 1802 e mais tarde ao resto do Mediterrâneo.[3] O Bloqueio Continental veio valorizar a posição única dos portos portugueses como únicas escalas e entradas na “Europa Napoleónica”[4].
[1] https://www.falmouth.co.uk/discover-falmouth/history/packetships/
[2] Wilkinson, Clive, British Logbooks in Uk Archives 17th –19th Centuries, A survey of the range, selection and suitability of British logbooks and related documents for climatic research, p. 62, Tabela 7.
[3] http://www.tpo-seapost.org.uk/tpo2/spfalmouthpkt.html
[4] http://www.cornwall-calling.co.uk/falmouth-packet.htm



Faro e as suas barras

A crise de 1756 foi resolvida pelo aumento do comércio ibérico devido à declaração de guerra da Inglaterra à França em 1757 e pela invasão da Saxónia por Frederico o Grande, em Agosto. Tinha começado a Guerra dos Sete Anos.[1]

Segundo uma descrição da época, em 1758, “O porto ou bahía desta cidade (Faro) fica pegado na mesma: he de pouco fundo e por isso não vem a elle navios grandes, mas sim só navios pequenos, e Hyates, Belendras, [balandra] e Caravelas; e poderá admitir juntas athé sessenta embarcações. A barra fica distante da Cidade huma légua para a parte do nascente depontando com o lugar de Olhão; a barra nova fica ao sul em distancia de outra légua e a barreta fica ao Sudueste também em distancia de outra légua; todas estas barras são de area, e pelas duas últimas só entram e saem as embarcações dos pescadores. Frequentam este porto à lém das embarcações dos moradores deste Reino, várias embarcações Inglesas, Olandesas, e Espanholas, e muitas Cathalães na ocazião da pescaria do Atum.[2]
[1] Sutherland, Lucy S., A London Merchant, 1695-1774, Rutledge, London, 1933, p. 32.
[2] Memórias Paroquiais, Vol. 15, nº 27, p. 145 a 156, “Sé, Faro”, PT-TT-MPRQ-15-27_m0090.tiff e PT-TT-MPRQ-15-27_m0091.tiff

Joseph Barr tinha uma sociedade comercial com William Crispin com sede em Faro. Como era usual nessa época as alianças comerciais eram consolidadas com casamentos entre os descendentes das duas famílias e parece que assim aconteceu entre a família Barr e a Crispin.

Barras de Faro, Portugal, desenho aguarelado de José de Sande Vasconcelos, in "Mapa da Configuração de Todas as Praças, Fortalezas e Baterias do Reino do Algarve", c. 1790, 
(Adaptado João Esquível, 2018) http://fortalezas.org/midias/arquivos/1692.pdf.

Na carta de Vasconcelos é evidente que o que se mostra é a Ria na maré cheia apesar de estarem indicados os sapais, mas vê-se o local onde havia a Barra do Ancão (M) fechada no Terremoto; as Ilhas de Areia são a ilha do Farol-Culatra-Praia de Faro (o 1.ª G da direita) a Ilha Deserta-Barreta (o 2.ª G da direita); era a este ancoradouro (T) que se referiam as Memórias Paroquiais, etc.

Num episódio sobre a intolerância religiosa que ocorria em Faro no Algarve[1], diz-se:


[1] Shaw, L.M.E., The Anglo-Portuguese Alliance and the English Merchants in Portugal, 1654-1810, Routledge Taylor & Francis Group, London, 1998/2017, p. 180. Traduzido do inglês pelo autor.


As diferenças religiosas trouxeram muita tristeza a muitos protestantes, homens e mulheres, em Portugal uma vez que em Portugal se mantinha uma cruzada insistente de acordo com a contra-reforma por mais tempo do que outros países católicos. Quando os protestantes estavam às portas da morte era provável que fossem assediados por padres para se converterem ao catolicismo. Foi esse o caso da Mrs. Crispin [seria a Mary Barr?] em 1777 em Faro e de que é um exemplo o seu marido e sócio na casa Barr, Crispin & Company. Mrs. Crispin ficou doente e teve ataques de delírio e ao reitor da Sé foi-lhe negada entrada no quarto de doente do seu marido. O reitor foi falar com o Cônsul [João] Lemprière[1] dizendo que ele a tinha ouvido clamar “Aleluia Santa Maria!” e que isso era um sinal que ela queria tornar‑se católica. O cônsul respondeu‑lhe que ele tinha feito as suas orações à sua vontade num período livre de delírio e que lhe tinha pedido que pelo amor de Deus que não deixassem que a convertessem ao catolicismo. Ainda assim o reitor voltou e forçou a entrada no quarto da doente mas foi posto fora pelo tio da Mrs. Crispin, o Mr. Barr[2]Um oficial do Senhor Bispo voltou com um grupo de soldados com mosquetes e com um juiz. O cônsul, Mr. Barr e o seu marido foram ameaçados com procedimentos legais cuja pena era a morte; o quarto da doente que estava trancado foi arrombado e o oficial, o reitor, o juiz, o escriturário e um sargento armado e dois soldados entraram no quarto. Um médico foi chamado e disse que ela estava delirante. O cônsul, a mulher e Mr. Barr foram banidos da casa pelo juiz e dois frades capuchinhos foram mandados chamar para a converter. O Sr. Walpole queixou-se à corte de Portugal e Ayres de Sá e Melo disse que a Rainha tinha dado ordens ao desembargador (o magistrado chefe) do Sul para ir imediatamente a Faro e ver o que se passava.[3]
[1] Há uma referência no “Património Cultural” sobre o palácio no qual se diz “Mandada edificar no terceiro quartel do século XVIII por João Lamprier, "negociante inglez, estabelecido em Faro" (LOPES, 1841, p. 145), este edifício é um dos exemplares da arquitectura barroca farense.” Ou “Séc. 15 / 16 - construção do primitivo imóvel; Séc. 18, 3º quartel - o abastado comerciante inglês João Lamprier manda reconstruir a casa”.
[2] The European Magazine and London Review, containing the Literature, History, Politics, Arts, manners and amusements of the Age: Philological Society of London, Vol. XI for 1787, J. Sewell, Cornhill, 1787, p. 375. No qual se lista Joseph Barr, esquire, of Hatton Garden, a Portugal Merchant ( e Mrs. Barr, wife of William Barr, Esq. of Southwark, Mrs. Savage, of Marlborough, a widow lady aged 92). Esta expressão, Portugal Marchant, significava que o mercador residente em Inglaterra mantinha ativamente relações comerciais com Portugal, quer direta quer indiretamente através de um representante. Neste caso era a família Crispin de Faro. Veja-se The Anglo-Marchant Alliance and the English merchants… p. n/a Cap. V. Nota 8. 
[3] Documento original. http://discovery.nationalarchives.gov.uk/details/r/C6848555 Folio 375: R. Walpole to Ayres de Sá e Mello. Protesting against the efforts of the authorities at Faro to forcibly convert the delirious Mrs. Crispin, and the mistreatment of Mr. Barr, Mr. Crispin and Mr. Lempiere who tried to prevent this. Date and place: 1777 Nov 22 Lisbon. 

De acordo com a informação recolhida no The European Magazine, Joseph Barr faleceu a 20 de Maio de 1787. No seu testamento onde se se lhe refere como Joseph Barr, são referidas duas filhas, Elizabeth Pleasant Barr casada com Ebenezer Geale[1]/[2], merchant em Dublin[3] (13Dez1766) e Sarah Barr casada com John Richardson, esquire, primeiro de Lombard Street e depois de Shackleford, County of Surrey. Lamentavelmente o testamento não refere o nome da mulher apesar de se lhe referir por várias vezes confirmando que lhe deixa em herança os livros, as mobílias, as pratas, as louças, a roupa de casa, o stoque de aguardentes, os anéis, as suas bugigangas e os restantes ornamentos pessoais. As filhas são contempladas, caso fossem vivas à data da sua morte e caso tenham tido descendência, com o rendimento de 400 e 500 libras estrelinas aplicadas em acções do Banco de Inglaterra. Nomeia executora sua mulher mas não refere o que acontece caso não haja descendência. 


Ebenezer Geale era filho de John Geale, esq. of Mount Geale, Co. Kilkenny, Irlanda, e sua mulher Elizabeth Evans casados cerca de 1722. Ebenezer teve os seguintes irmãos Joseph Geale (cc Ann Lowcay), Henry Geale (cc Jane Evans), Benjamin Geale (cc Anne Falkiner), e Ann Geale (cc John Humphrey)[4]. Existe um documento The Betham abstract for the will of Ebenezer Geale datado de 24 de Dezembro de 1794 e aprovado a 9 de Setembro de 1795 onde são nomeados a sua irmã Elizabeth Poulter[5] e as suas filhas Elizabeth (Poulter) Roberts, Abby Poulter and Letitia Poulter. Também é nomeada a mulher Elizabeth Pleasant Geale, o irmão Benjamin Geale e os filhos de Benjamin, John (o mais velho), Frederick, e Daniel, a sua irmã Ann Humphrey e o filho de Ann, William Humphrey e a respectiva filha Elizabeth Frew, sobrinho neto William Frew filho de Elizabeth, a sobrinha-neta Ann Humphrey filha de William, o sobrinho neto Henry Carpenter, irmãos Joseph Knipe, Elizabeth Knipe filha de Joseph e mulher do tio Henry Evans. 


Por estas descrições e documentos, Elizabeth Pleasant (Barr) Geale não teve geração ou se a teve morreram antes do pai. No caso da irmã Sarah não consegui confirmar a existência de geração a não ser o facto de que John Richardson (de Shackleford) comprou aos descendentes de James, 4.º Conde de Salisbúria, a famosa casa Hertmore (ou Hertmere) e que depois a passou ao filho John Aldborough Richardson, esq[6]. Fica por averiguar. Estas ligações foram referidas aqui porque, mais tarde, vão aparecer referências a estes mesmos apelidos como parceiros comerciais nos negócios nos testamentos dos Crispin. 


[1] Foi subscritor da obra: Rutty, John, An Essay Towards a Natural History of the County of Dublin (…), Vol. I, W. Sleater, Dublin, 1772, p. 2. Foi também um dos fundadores da Dublin Chamber of Commerce em 1783. https://www.geog.cam.ac.uk/research/projects/chambersofcommerce/dublin.pdf
[2] Veja-se história desta família http://earliestgealesinireland.blogspot.com/
[3] Estabelecido na Bachelors Walk, n.º 7 de Dublin (Ebenezer, Frederick. & Daniel), Merchants and Traders Dublin, Watsons Almanack 1783, p. 39 (imagem 13). https://www.swilson.info/wat1783.php?pageno=0
[4] Tipperary Clan Archives, Freeman's Journal, November 1773: "Mrs POULTER, Dunkitt, wife of Rev Joseph POULTER." https://www.findagrave.com/memorial/187457765/elizabeth-poulter
[6] Brayley, Edward Wedlake; Britton, John, A Topographical History of Surrey, David Bugue, London, 1841, p. 220. https://books.google.pt/books?id=mbcHAAAAQAAJ




William Crispin nascido em Modbury em 16 de Junho de 1694 casou a 11 de Julho de 1719 com Mary Martin, de Newton Ferres[1], condado de Devon e com vários filhos sendo que um deles se chamou William Crispin, nasceu em Setembro de 1725 e provavelmente o que se refere no parágrafo que segue. Ainda não há certezas.

No Algarve. Os Crispin de Modbury

Passou a Portugal em 1749[2] um tal William Crispin nascido em Modbury casado com Mary Barr, de Waterford, Sudeste da Irlanda. 

Num processo de litígio pela herança de Henry Crispin interposto pelo seu filho natural contra a sua tia Maria Crispin Doglioni diz-se, textualmente, e pelo interesse não é traduzido: 

In the course of the last century [Séc. XVIII] William Crispin appears to have established himself in business at Faro, in Portugal, and to have abtained from the King of Portugal a license to trade there. This license was granted per virtue of a treaty between England and Portugal, on which was founded a Portuguese ordinance. The license recited that “William Crispin is a British merchant, established in the city of Faro, to which British nation by the register of these privileges established, &c., it is granted to the noble merchants of this nation that they may be free and able to negotiate, treat, sell, &c.” William Crispin had an English wife, and he died in Portugal, leaving among other children, Henry Crispin, who, like his father, lived and carried on business at Faro.[3] Eis a confirmação! 

[1] Family Search Database on-line, England Marriages, 1538-1973, film FHL 917.203.
[2] Há documentos na posse dos seus herdeiros com a sua letra e as datas próximas de 1750.
[3] The Law Reporters. English and Irish Appeals Cases and Claims of Peerage, before the House of Lords, processo de Maria Doglioni (appellant) and Francisco José Cortes Crispin (respondant) 16, 17 e 31 de Julho de 1866, Vol. I, During the Session of 1866, William Clowes & Sons, Londres, 1866, p. 302.






John Crispin, sénior, n.º 4, acima 

Progenitor da maior parte dos descendentes algarvios


John Crispin sénior, faleceu em Faro na sua casa da Rua de São Pedro, Freguesia de São Pedro a 21 de Abril de 1824 (ANTT, Faro, São Pedro, O-4-7v. imagem 9) com 81 anos de idade conforme se diz no óbito mas na realidade com 79 anos. Foram-lhe dados todos os sacramentos e foi sepultado na Matriz de São Pedro, tendo feito testamento de que tenho cópia e passo a resumir. Esta data de óbito é importante pois o último codicilo, aparentemente feito por ele, tem a data do dia seguinte, o que é estranho!


John Crispin, Senior, de quem descende parte do ramo Algarvio. Imagem gentilmente cedida por Luís Bivar de Azevedo, Junho 2018, tem na bordadura "pour faire visite".


No seu testamento faz referência a valores que devia a Joseph Barr, de Londres por não terem sido lançados na contabilidade e que pede sejam pagos aos seus herdeiros. Talvez seja por esta razão que o testamento de João Crispin Sénior tem esta referência: "Extracted from the Registry of Her Magesty's Court of Prerrogative in Ireland", por causa das filhas de Joseph Barr, Elizabeth Pleasant Barr casada com Ebenezer Geale, merchant em Dublin e Sarah Barr, referidas acima. Contactei os arquivos irlandeses do Court of Prerrogative. De facto consta do índice mas informaram-se que os documentos se perderam. A ideia era confirmar se houve alguém que se habilitasse à herança.

Fez uma contribuição de 14$400 réis em papel e outro tanto em moeda para a ajuda do resgate dos cativos em Argel (1811).
(http://purl.pt/28638/service/media/pdf/sc-10905-2-v) 

Também lembra outra dívida a John Avent[1] [Sueco] do Condado de Devon e que pede seja paga aos respetivos herdeiros. Começa com os legados e o primeiro legatário só é referido como afilhado, Diogo Frederico, empregado como “caixa” da Casa Mercantil e é-lhe legada a enorme verba de 800$000 réis. Logo de seguida refere a Maria Efigénia “que agora reside em Estoi em casa de Ana Joaquina, daquele lugar” a quem lega 480$000 réis. Passa a fazer um legado à Misericórdia “para ser aplicado no tratamento de doentes”; outro à paróquia de Albufeira para ser distribuído por 50 pobres; deixa uma verba a Gertrudes Maria filha do falecido Domingos Rodrigues, calafate, e uma verba igual a Teresa de Jesus de Loulé, “agora empregada de servir na minha casa nesta cidade” [Será esta a mãe de Diogo Frederico?]. Também deixa uma verba a Maria Jacinta, de Loulé, [Menos provável esta?!] “agora empregada de servir em casa de meu sobrinho o Doutor Lázaro Doglioni”. Outra verba a Ana da Encarnação também chamada Ana da Ribeira residente no bairro de Nossa Senhora do Carmo desta cidade.
[1] Aparece referenciado como agente em Modbury, Devon.

Nomeia e institui como seus herdeiros depois do cumprimento das precedentes disposições todos os seus sobrinhos, os filhos do seu irmão Guilherme Crispin e os seus outros irmãos Thomas Witicam (ou Witicombe) Crispin, Maria Crispin e Isabel Heans, agora todos já falecidos, sendo subentendido que não haverá qualquer distinção feita se são maiores de idade ou jovens, como no que diz respeito ao facto de viveram em casa dos seus defuntos pais. As suas disposições são as seguintes: Os filhos do seu irmão Guilherme deverão ficar e herdar dois terços dos meus bens imóveis e móveis por uma divisão a ser feita da seguinte maneira: Os dois terços serão divididos em 9 partes e duas dessas partes serão para o meu sobrinho José Barr Crispin; duas outras partes para cada uma das minhas sobrinhas Maria Doglioni e Teresa Crispin, e as três partes remanescentes serão divididas em partes iguais entre os meus outros sobrinhos John Crispin Júnior, Guilherme Crispin e Henrique Crispin. No que respeita ao outro terço do total da minha propriedade e posses nomeio e instituo como meus herdeiros, os meus outros sobrinhos, os filhos dos meus irmos já referidos, Thomas Witicombe, Maria Crispin e Isabel Heans, para que seja dividido o dito terço em partes iguais. Nomeio como meu testamenteiro e executor testamentário o meu referido sobrinho José Barr Crispin que, de toda a minha propriedade e posse, em qualquer lugar ou país em que essa propriedade se encontre e exista, deverá pagar os legados mencionados acima com o despacho e pontualidade que espero dele sem que qualquer outra pessoa tenha o direito de se opor ou obstruir o seu trabalho, no que diz respeito ao cumprimento das minhas ditas disposições e o pagamento dos ditos legados, e como remuneração do seu trabalho e desempenho dessa atividade deixo-lhe 200$000 réis e na falta do meu sobrinho nomeio como executor testamentário o meu dito afilhado Diogo Frederico com a mesma autoridade e outras prerrogativas que o meu primeiro executor nomeado e como remuneração pelos seus trabalhos dou-lhe e lego-lhe a soma de 50$000 réis.


Casa da Família Crispin em Faro. (SIPA)

Declaro que todas as despesas que sejam necessárias fazer de maneira a levar a efeito e cumprir as minhas ditas disposições serão pagas pelas contas dos meus bens sem qualquer preconceito contra o meu inventário, e ainda que e meu dito Executor será obrigado a fazer os pagamentos e legados aos meus herdeiros imediatamente e ainda mais notificá-los do meu falecimento e das minhas disposições em seu favor de modo a que as possam reivindicar o que têm direito, e como o exposto é a expressão da minha última vontade e intensão, peço a todos os juízes e outros magistrados a quem diga respeito que lhe deem todo o efeito e cumprimento de acordo com a respetiva Lei estabelecida. Feito e assinado por mim em Faro a 7 de Setembro de 1807. Segue-se a aprovação com a assinatura das testemunhas. 

De seguida faz um 1.º Codicilo datado de 23 de Fevereiro de 1810, o qual acrescenta um legado de mais 480$000 réis ao meu afilhado e agora caixa e guarda-livros da minha Casa Comercial e para a minha afilhada Maria Efigénia, agora moradora em Estoi e casada com Pedro Gomes do Castello, 400$000 réis a somar aos outros legados já feitos aos ditos legatários pelo meu testamento. Volta a fazer uma referência ao legado deixado à sobrinha Maria Doglioni que sejam preservados em fundos ingleses e que possa ter e desfrutar, durante a sua vida, os juros do capital colocado nos ditos fundos e no caso de ter alguns filhos, então esses filhos tomarão o seu lugar e ter e herdar os ditos fundos que serão divididos em partes iguais entre esses filhos, e no caso de não ter filhos, que esses fundos sejam divididos em duas partes e que uma dessas partes seja dividida igualmente pelos meus sobrinhos José Barr Crispin, Guilherme Crispin, Henrique Crispin e João Crispin júnior, e a outra metade dos ditos fundos seja dada e legada aos referidos Diogo Frederico e Maria Efigénia para que seja dividido em partes iguais e no caso da sua morte aos seus filhos; Que em relação ao legado deixado a minha sobrinha Teresa Crispin referida no testamento e que de momento é solteira, se processe da mesma maneira que fica estabelecido para sua irmã Maria Daglioni, e que no caso de um eventual casamento e tendo filhos e seus filhos serão eventuais herdeiros legítimos e herdar os ditos fundos, tal como se estabeleceu para sua irmã Maria Doglioni e no caso de casar e não ter descendencia que os ditos fundos, depois do seu falecimento, sejam divididos em duas partes e que uma dessas partes seja dividida igualmente pelos meus sobrinhos José Barr Crispin, João Crispin júnior, Guilherme Crispin e Henrique Crispin em partes iguais e que a outra segunda parte seja dividida em partes iguais pelos seus afilhado e afilhada Diogo Frederico e Maria Efigénia.

Também estabelece que é seu desejo que o executor testamentário nomeado no seu testamento pague e liquide, retirando da minha propriedade e valores, todas as minhas dúvidas após ser apresentada prova satisfatória que as mesmas dívidas são legítimas, sendo a minha intenção que não fique nenhum dos meus credores negligenciados ou valores em dívida por pagar. 

Peço e solicito que o meu Executor observe e cumpra os encargos que o meu falecido irmão Guilherme Crispin, de quem eu era executor testamentário, no que diz respeito a uma dívida da nossa Casa Comercial devida a John Rogers, de Chester, em Inglaterra em conformidade com a declaração feita pelo meu falecido irmão escrita no fim de um livro de notas que ele deixou e que está agora na minha posse, relativo a uma carga de carvão que não tendo sido ainda liquidada, está ainda por liquidar, as despesas que pagámos pela dita carga de carvão ainda estão até ao momento por liquidar e que somam o valor de 52$649 réis para além do aluguer do armazém; e também se possível liquidar e terminar o valor que a nossa Casa Comercial tinha com os escritórios de Evans Offices and Company, de Lisboa no ano de 1787 somando o valor do inventário em 220$000 conforme está escrito no dito Livro de Notas; e também peço que o meu Executor pague e liquide uma pequena dívida devida pela nossa Casa Comercial no balancete das nossas contas a Juan Bagantz, que penso que vivia em Cadiz, conforme recomendação do meu falecido irmão num artigo inserido por ele no dito Livro de Notas, cuja dívida permanece por liquidar por falta de informação suficiente sobre se o dito Bagantz ainda vive ou quem sejam os seus herdeiros ou representantes, sendo que assim declaro terminado este codicilo. 

O 2.º Codicilo foi datado de 19 de Abril de 1821 (um dia antes de falecer com 71 anos de idade), no qual diz textualmente: Que ele agora tem os seguintes sobrinhos e sobrinhas sobreviventes: João Crispin júnior, Henrique Heans, Ricardo Heans, Maria Start, de Modbury, Graça Heans, de Devonport, Thomas Crispin, de Londres, Joana Crispin, de Londres, e Isabel Crispin, de Londres, e que deixa e lega a cada um deles 250 libras esterlinas, declarando ao mesmo tempo que o seu sobrinho nomeado em primeiro lugar João Crispin, é da cidade do Porto e que Henrique Heans e Ricardo Heans são de Devonport, que ele da mesma maneira deixa e lega a seu afilhado ou filho natural Diogo Frederico Crispin, que agora trabalha como guarda livros na Casa Comercial doze cruzados para além da sua roupa, livros, quadros que ele Testador tenha na sua posse com a excepção de alguns livros que deverá dar a José Barr Crispin e um livro de Notas Comerciais em rolo, e o dicionário Postlethwayt[1] em dois volumes.

[1] Postlethwayt, Malachy, The Universal Dictionary of Trade and Commerce, 1757


Que deixa e lega a sua afilhada Maria Efigénia casada com Pedro Gomes 800$000 réis, cujo valor está neste momento nas mãos de seu sobrinho José Barr Crispin e que deverá ser creditado para a dita Maria Efigénia, quando ele achar mais conveniente e apropriado e que seja para o seu maior benefício e vantagem; 


Residência da Família Crispin na Rua de São Pedro em Faro com a torre com vista para o porto.
Que também deixa e lega a Teresa de Jesus, a Maria Sarintar e a Teresa de Jesus também conhecida como “carapinha”, a cada uma delas a soma de 48$000 réis, também deixa e lega a Gertrudes Maria da Assunção 40 moedas de ouro de 4$800 réis cada, e que deixa e lega a Inácia Maria sua irmã 4$800 réis, também deixa e lega a 6 trabalhadores que deverão acompanhar o seu funeral e que lhes deverão ser dados pelo seu executor testamentário 1$600 réis a cada um deles que o testador deverá nomear, e nomeia como executor testamentário o seu sobrinho José Barr Crispin a quem se lhe dará como remuneração o valor de 800$000 réis de igual modo – e igualmente o testador declara como nulos e sem efeitos os artigos no seu testamento a favor de Diogo Frederico no que respeita ao valor de 800$000 réis assim como o valor de 480$000 réis mencionados no Codicilo e também os dois artigos do testamento e no codicilo a favor de Maria Efigénia no que respeita ao valor de 480$000 réis no testamento e de 400$000 no codicilo; e que também anula e revoga o artigo a favor de Gertrudes Maria da Assunção do valor de 48$000 réis e também aqueles relativos aos legados feitos a Teresa de Jesus e a Maria Jacinta; e mais o testador declara nulos e sem valor todas as disposições mencionadas no seu testamento no que diga respeito ao seu sobrinho João Crispin júnior e os outros sete indivíduos mencionados acima. 

Tendo o testador expressado assim a clara e definitiva soma com a qual dá e lega a cada um deles, entendendo e direcionando quem quer que seja que as disposições feitas e expressas nesta sua vontade no que respeita aos seus sobrinhos e sobrinhas José Barr Crispin, Maria Doglioni, Teresa Crispin, Guilherme Crispin e Henrique Crispin deverão permanecer como estão, sem mudança, e sejam cumpridos e observados, e ainda mais o Testador acrescenta e adianta e declara que alguns dos sobrinhos e sobrinhas que vão herdar as suas propriedades e bens como seus herdeiros são aqueles cujos nomes que referiu aqui de declarou, porque há outros cujos nomes não mencionou no seu testamento e porque não foram mencionados permanecem excluídos de qualquer participação nas suas ditas propriedades, e que para que fique bem claro ele testador revoga e anula a disposição feita no seu Codicilo relativamente ao seu sobrinho João Crispin júnior, da cidade do Porto, pelo qual não pode fazer qualquer reclamação como seu direito mais do que as 250 libras esterlinas dadas e legadas pelo Testador, e ele o dito Testador declara ainda que tendo expressado no dito seu testamento de última vontade que legava à Santa Casa da Misericórdia a soma de 120$000 réis quer agora que o valor seja de 240$000 réis e que, também lega a todos os pobres que acompanhem o seu funeral 22 moedas de ouro de 4$800 réis; e ainda que dá e lega a sua afilhada Gertrudes Maria filha de João Batista 4$800 réis e também a Ana Maria Maurícia 4$800 réis, e ainda que no que respeita ao dito dicionário que o lega e dá a Thomas Pendar, desta maneira e forma declarou o Testador a sua última vontade e disposições testamentarias que sejam adicionadas ao seu testamento e codicilo de maneira que formem um todo, ordenando e ditando que esse todo seja observado e cumprido e que pede e roga a todas as justiças e magistrados de Sua Majestade, que faça com que seja cumprido, observado e finalizado de maneira e forma como está expresso. 

Em fé e com as testemunhas declara que este acto é verdadeiramente seu e testemunhado pelas testemunhas José Luís Broa, caixa e guarda-livros da Casa Comercial, José Viegas, um criado, Joaquim José Xavier, um trabalhador, António Martins Catado da aldeia de ..?.. na paróquia de Loulé, Manuel de Andrade, marinheiro, todos naturais e residentes nesta cidade na presença de quem, eu o Escrivão li diante dos presente e do testador que o declarou como sendo o mesmo e conter a expressão do seu desejo e intenções, eu António Maria Pereira, notário público e escrivão redigi e assinei este presente acto, António Maria Pereira, João Crispin, José Luís Broa, José Viegas, Joaquim José Xavier, António Martins Catado, como testemunhas e de Manuel de Andrade como testemunha uma cruz, e nada mais se continha no dito codicilo que foi fielmente copiado e assinado no Registo de Notariado referido em Faro como se diz acima, e eu, António Maria Pereira, Notário Público e Escrivão, redigi e escrevi este presente acto e lhe puz a minha assinatura e selo, em testemunho da verdade, sinal público, António Maria Pereira, Escrivão, certifico este acto de disposições testamentarias têm que pagar de selo real o valor de 440 réis. Faro 22 de Abril 1824. Francisco de Paula Oliveira de Carvalho. 

Curioso este codicilo datado do dia seguinte à data oficial de falecimento de João Crispin e no qual se “desfazem” quase todas as disposições expressas 15 anos antes, nomeadamente o facto de serem canceladas as disposições relativas aos legados e valores deixados aos filhos naturais, Diogo Maria Frederico e Maria Efigénia para além de todos os sobrinhos que viviam em Inglaterra. Estranho!

Assento de óbito de John Crispin Sénior

John Crispin, faleceu a 21 de Abril de 1824 com testamento. (ANTT, Faro, São Pedro, O-4-7v. imagem 9.)

A descendência dos seus dois filhos, Maria Efigénia e Diogo Frederico Barr Crispin vai referida mais abaixo.

Sobre o n.º 7, William Barr Crispin, casado com Mary Walsh referido acima


William Barr Crispin, irmão de John Crispin sénior, foi um dos filhos com maior proeminência neste documento, também dado como nascido em Modbury e vice‑cônsul de Inglaterra em Faro casou com Mary Victoria Walsh(?)[1] e segundo se leu provavelmente na Irlanda conforme declara o seu neto Francisco José Cortes Crispin[2] que sabemos não poder ser. Há referências ao casamento com Maria Victória Welsh por exemplo no casamento de sua neta como natural de Modbury. 

Entretanto lemos este texto curioso, que se debruça mais uma vez sobre os atritos religiosos das diferentes populações residentes no Algarve, e que não traduzimos pelo colorido que aporta: Lorsqu’il s’agit d’adultes en rupture avec le protestantisme dès leur arrivés sur le sol portugais, la conversion peut s’expliquer par un contact antérieur avec le catholicisme: ansi Samuel Pitts a séjourné à Cadiz [3] chez son oncle et parrain, lui-même marchand que a abjuré à Séville et l’a sans doute incité à faire de même, ce qu’il concrétise lors de son installation à Faro. La différence de statut autant que l’âge peut favoriser la pression sociale sur l’employé: les commis subissent l’influence de leurs proches qu’ils soint parents ou non. Le cas de Guilherme Crispin en 1753 est particulièremente significatif. Commis de Dona Maria Pitts, que a repris a Faro les affaires de son mari décédé Samuel, il signale qu’elle “déteste les hérétiques”. Il choisi de se convertir avec tous ses enfants pour conserver ses chances de travailler, dit-il. (…) En revanche, lorsque la conversion est dictée par des motifs plus opportunistes, la rupture familiale paraît moins profonde. Ansi, Guilherme Crispin se convertit pour conserver son travai en 1753, mais son frère João reste protestant bien qu’il soit également fixé à Faro, tout comme son autre frère José en Angleterre.[4]

Esclarecendo quem são estas personagens: Samuel Pitts[5] era natural de Cricket Malherbie, Somerset[6] e não de Triquet como disse Romero de Magalhães[7]. Já era referenciado em Cádiz em 1690/1 como “segurador de barcos” e como mercador em 1727[8] no mesmo ano em que veio para Faro. Tinha o título de Esquire porque era o modo de referência dado aos comerciantes que assim se declaravam em Inglaterra. Faleceu em Abril de 1729 em Kensington no Middlesex onde foi feito inventário dos seus bens[9] por sua morte. Três anos antes, em 5 de Agosto de 1726 tinha havido um processo de averiguações sobre o seu estado mental e quais os seus bens.[10]

Segundo Romero de Magalhães, no Algarve Económico, informa que em 1753 Guilherme Crispin quer converter-se em segredo. Um jesuíta trata do assunto com a Inquisição, não dizendo o nome do homem que "tem grandes inconvenientes em abjurar publicamente por rezão de perder o seu negócio e conveniências". Reduziu-se nesse ano mas só apareceu publicamente como católico romano em 1794, tão velho que não se podia ajoelhar. Era irmão de um outro mercador inglês, João Crispin, [sénior] ligado aos grandes Lamprieres. Ser católico romano em terras de Santa Maria era, paradoxalmente, um perigo. Mais adiante, Romero Magalhães justifica esta sua afirmação com a dupla posição de mercadores ingleses vivendo em Portugal que podiam ser incomodados no seu país de origem por serem católicos e em Portugal sob alçada e à descrição do Santo Ofício. (Cad. 4.º, Reduções, fls. 202-203 e 217, citado por Magalhães p. 292, 384. Faustino Crespo,  p. 112-114, 390).

Continuando no nosso tema e voltando à eventual mulher de William Crispin, Mary Victoria Walsh, não queremos passar sem deixar esta nota. Curiosamente existem referências a um James Walsh casado em Lisboa a 5 de Novembro de 1803[11] com Sophia Matilda Slessor natural de Lisboa onde n. a 21 de Julho e b. a 30 de Julho de 1788, filha de John Stesson e Harriet Maria. James Walsh e Sophia tiveram 3 filhos nascidos no Porto[12]: William Henry Walsh n. a 1 de Outubro de 1804 e b. a 18 de Agosto do mesmo ano; James John Walsh, n. 21 de Junho de 1805, b. a 5 de Agosto e f. a 25 do mesmo mês e ano; e John Walsh, n. a 6 de Setembro e b. a 20 de Outubro de 1806. Nada mais averiguei desta gente.

Os filhos de William Crispin e de Mary Walsh, que se passam a enumerar e a comentar, não estão em nenhuma ordem especial pois não se sabem as datas dos respetivos nascimentos. 
[1] O interrogante tem a ver com o facto de a leitura do assento de casamento de Maria Crispin com Lázaro Doglioni, onde vem referido este apelido e que pertence à coleção de assentos de casamento de paróquia de São Pedro em Faro, não é clara na ortografia havendo dúvidas quanto ao apelido.
[2] The Law Reports: Court of Probate and Divorce, Vol. I, Sharpe & Sharpe v. Crispin, 9 de Fevereiro de 1869, p. 613.
[3] Carrasco‑González, M.ª Guadalupe, Los Instrumentos del Comercio Colonial en el Cádiz del Siglo XVII (1650-1700), Banco de España - Servicio de Estudios, Estudios de Historia Económica, n.º 35 – 1996, p. 171.
[4] Krumenacker (dir.), Yves, Burkardt, Albrecht; Bertrand, Gilles; Commerce, Voyage et Expérience Religieuse: XVIe-XVIIIe siècles, Presse Universitaires de Rennes, 2007, p. 257-258.
[5] Veja-se assento de Faro S. Pedro B-7-7 imagem 15, nascimento de Mariana filha de John Keating e uma filha de Samuel Pitts.
[7] Magalhães, Joaquim Antero Romero, Algarve Económico" 1600-1773, Vol. II, Editorial Estampa, Lisboa.
[8] Rodríguez‑Hernández, Antonio José; Arroyo‑Vozmediano, Julio; Sánchez‑Belén, Juan A., Comercio, Guerra y Finanzas en una Época en Transición (Siglos XVII-XVIII), Castilla Ediciones, Valladolid, 2017, p. 354, nota 51.
[9] National Archives, Probate PROB 31/67/263.
[10] National Archives, C 211/19/P41.
[11] British Factory Chaplaincy, Lisboa, Portugal Matrimónios, filme FHL 477.648.
[12] British Factory Chaplaincy, Porto, Portugal Batismos, film FHL 574.645.


Maria Barr Crispin 7.b) acima, filha de William Crispin e Mary Walsh, casou a 11 de Maio de 1806, como se disse, com Lázaro Doglioni, veneziano, solteiro, sendo testemunhas João Crispin Sénior, tio da noiva e José Barr Crispin, irmão. (ANTT, Faro, Sé, C-11-57v./58 imagem 59).


Lázaro Doglioni e Maria Luísa Crispin Doglioni (Geneall)

Lázaro teve mais irmãos: Antonia Maria Marina Doglioni, Joana Doglioni, Maria Luisa Doglioni, e Nice Doglioni. Faleceu a 14 de Janeiro 1865[1], com 90 anos, na rua residência no Largo do Terreiro do Bispo da Freguesia da Sé, e em Março 1866 é notícia a abertura do seu testamento cujo executor testamentário foi o Dr. Justino Cúmano, médico em Faro e cuja fortuna foi avaliada em 180.000 libras[2], contemplados pelo seu tio John Crispin.

Notícia do Testamento e Últimas Vontades de Maria Crispin Doglioni, viúva, nos jornais de Londres, Illustrated London News, 13 de Março de 1866.

O Dr. Lazaro Doglioni deixou um filho natural com geração em Faro, com descendência. Foi executor testamentário do seu cunhado José Barr Crispin. Lázaro Doglioni, nascido a 8 de Agosto de 1776 em Veneza, Itália e falecido a 7 de Novembro de 1858 em Faro, médico veneziano, era filho de Francesco Antonio Benedetto Doglione (n. 1730 Veneza) e de Angela Maria Mandichi Julia, neto paterno de Tomazo e Antónia Doglioni e materno de Spiridion and Ansillia Mandiche naturais da Esclavónia (hoje Dalmácia). Em 1801, enquanto se encontrava em viagem marítima para a Grã-Bretanha e Irlanda, o barco onde viajava na companhia de duas irmãs, naufragou. As irmãs chamavam-se Maria Luisa Doglioni nascida em 1797 e falecida em 1867 com 70 anos de idade e Antónia Maria Marina Doglioni. Tendo sido salvos por pescadores de Tavira, viajou até Faro (onde se situava o consulado veneziano), acabando por ter ficado bastante agradado com a região, as suas gentes o seu clima, pelo que aqui se fixou até ao fim da vida. Foi-lhe concedida a naturalização portuguesa por Decreto das Cortes Gerais de 15 de Janeiro de 1822.[3]

Acto de Naturalização de Lázaro Doglioni.
A sua presença nesta cidade acabou por fazer com que um seu sobrinho, o Dr. Justino Cúmano, igualmente aqui se fixasse. Um outro sobrinho, Dr. Constantino Cúmano, acabaria por passar igualmente por esta cidade (deixando obra na área do tratamento da sífilis). 

Antónia Maria Marina Doglioni casou como se disse com João Paulo (Gianpaolo) Cúmano, natural de Trieste na Sé de Faro a 12 de Agosto de 1805[4] de quem houve dois filhos: Constantino que casou com Isabel Rasconi que tiveram duas filhas casadas com os irmãos Perusini; e Justino Cúmano casada com Maria Victória Barr Crispin Pereira de Mattos, com geração que se verá a seguir. 



O Teatro Lethes, Faro (alçado e vista lateral esquerda SIPA, interior, painel por cima da boca de cena)

O Teatro Lethes, em Faro, depois de na primeira década do século XIX ser utilizando para aquartelamento militar das tropas napoleónicas sob comando do General Junot[5], foi obra da iniciativa do Dr. Doglioni. Em 1843 comprou em hasta pública o edifício do Convento de Santiago Maior (encerrado desde a expulsão dos Jesuítas), com a intenção de o transformar num teatro como o São Carlos, em Lisboa. Este Teatro Lethes seria inaugurado oficialmente a 4 de Abril de 1845. 

Um outro conjunto habitacional, perto de Teatro Lethes, foi também comprado pelo Dr. Doglioni e transformado no notável Palacete Doglioni. Foi embaixador dos Estados Unidos em Faro, a partir de 26.01.1828. Introduziu com sucesso a vacina contra a varíola em Faro, entre 1809 e 1813, apesar do cepticismo dos seus pares. 

Vista aérea da residência da família Doglioni na Rua Lehtes em Faro.

Lázaro Doglioni não teve filhos do seu casamento com D. Maria Crispin, pelo que os seus bens acabaram por ser herdados pelo sobrinho Justino Cúmano. Lazaro Doglioni faleceu na Freguesia da Sé de Faro a 7 de Novembro de 1858, com os sacramentos da extrema unção "porque a moléstia com que foi atacado não permitiu mais", sendo sepultado "no chão que está próximo da Porta da Sacristia da Capella dos Irmãos Terceiros de Nossa Senhora do Carmo[6]

Terá ainda deixado um Diário escrito com dados interessantes para a história das Lutas Liberais[7], época conturbada que levou a que o "seu" Teatro ficasse com o apaziguante nome de Letes (o rio do esquecimento).

[1] ANTT, Faro, São Pedro, O-11-71v. imagem 5.
[2] The Law Times, the Journal and Record of the Law and the Lawyers, from November 1965 to October 1866, Vol. XLI, Office of the Law Times, London,  de 17 de Março de 1866, p. 327.
[3] Diário das Cortes Geraes e Extraordinárias da Nação Portuguesa, num. 215, p. 3735.
[4] ANTT, Faro, Sé, C-11-57v./58 imagem 59.
[5] Direção Geral do Património Cultural. Maria Ramalho/DGPC/2016.
[6] ANTT, Faro, Sé, O-13-161 imagem 162.
[7] Ref. Bibliográfica: Analisadas na obra Memórias sobre a aclamação do Infante D. Miguel em Faro. O diário de Lázaro Doglioni: uma fonte para a História do liberalismo e das lutas civis no Algarve, do Dr. Doglini e José Carlos Vilhena Mesquita, co-autor, editado pela Delegação Regional do Sul da Secretaria de Estado da Cultura em 1990.


Henry Crispin 7.c) acima, filho de William Crispin e Mary Walsh, solteiro, pode ter nascido na Irlanda ou em Faro conforme declara o seu filho Francisco José Cortes Crispin[1] e faleceu de uma apoplexia a 8 de Janeiro de 1828 conforme consta do seu assento de óbito na Igreja de São Pedro em Faro[2] razão pela qual é omisso no testamento do irmão José Barr Crispin. No processo ocorrido em Londres, Crispin versus Bell & Bell (representantes de Maria Doglioni Crispin), em 1858, se afirme que o testamento  tem a data de 25 de Abril de 1825*. Não casou mas após a sua morte e passados alguns anos, quase 30 anos depois, apareceu um homem nascido em Faro, em 1813[3], criado em casa de uma mulher de nome Bárbara Júlia Córtes[4] que após justificação de maternidade feita por declaração, pois não foi apresentado nenhuma cópia do assento de baptismo conforme exposto em tribunal, afirmou ter nascido em Outubro de 1813, iniciou um processo de reivindicação de herança contra Lázaro Doglioni, testamenteiro de Henry Crispin e posteriormente contra sua mulher e viúva Maria Doglione, com o nome Francisco José Cortes Crispin que acabou sendo reconhecido como filho natural de Henry Crispin, e que conseguiu o reconhecimento nos três tribunais portugueses, processos iniciados em 21 de Junho de 1852 em Faro, da Relação em 17 de Julho de 1856, e Supremo Tribunal a 3 de Fevereiro de 1858 em Lisboa com um processo de filiação e reclamação de herança, passando a assinar Francisco José Cortes Crispin. Este processo de reivindicação estendeu-se a outras heranças existentes dos irmãos de Henry Crispin e de alguns dos primos que morreram sem descendentes legítimos diretos ainda que fora do país, como o que ocorreu em Londres relativo ao valor de ações da sociedade que por volta de 1860 tinham o valor de 180.000 Libras estrelinas.[5]
* The Jurists Report, Vol. 6, Parte I, London, 1860, p. 303.

Durante o processo de filiação ocorrido em Faro, Francisco José pôs uma acção de sequestro de bens ao casal Doglioni como garantia da herança em causa mas que foi anulada pelo Tribunal por despacho de 10 de Agosto de 1857. O processo dos Doglioni contra o Crispin foi usado em Londres para conseguir poder de administração dos bens em solo estrangeiro mas Francisco José interpos uma providência cautelar por alienação indevida de bens. Francisco José deslocou-se a Londres a 21 Maio de 1859, e residia no n.º 2 GoldenSquare, Middlesex, e em Julho desse ano foi-lhe concedida audiência, pendente de fiança de custos, num processo contra Maria Doglioni e outros em que foi condenada nas custas do processo e pagamento de custas do Francisco José e à restituição dos bens do falecido que ainda existissem. Lazaro Doglioni faleceu entretanto, antes da conclusão do processo (7Nov1858). Aparentemente Henry Crispin tinha feito testamento datado de 25 de Julho de 1825 sobre o qual houve suspeitas em Londres de ser uma falsificação[6], pois não tinha sido apresentado nos tribunais portugueses, pelo que foi desestimado, dando-lhe direito à totalidade da herança e não só a dois terços caso o testamento fosse considerado verdadeiro. Francisco José viu provada a pretensão de ser filho natural de Henry Crispin, em julgamento com juri entre o fim de Fevereiro e 4 de Março de 1863 em Londres tried on oral evidence before the court by a special jury e que acabou por confirmar a sua filiação entre 17 e 23 de Abril, debater as dúvidas existentes tendo a decisão final sido proferida a 27 de Maio obrigando à restituição da totalidade da herança devida, nomeadamente uma parte de ações/stocks em Libras na Banca de Londres, uma vez que o pretenso testamento não havia sido apresentado nos tribunais em Portugal. 

Era de confissão Anglicana mas converteu-se ao catolicismo em 1826.[7] Henry Crispin quando morreu desencadeou o processo de elaboração de testamentos dos irmãos. O herdeiro era casado e tem descendência que desconheço.

[1] The Law Reports: Court of Probate and Divorce, Vol. I, Sharpe & Sharpe v. Crispin, 9 de Fevereiro de 1869, p. 613.
[2] ANTT, Faro, São Pedro, O-4-29v. imagem 31.
[3] Conforme ele mesmo declara no Recenseamento de 1861, Londres, onde ficou alojado em casa de dois boticários na Lower James Street no bairro de Middlesex, Londres, para onde foi acompanhado por J G F Guimarães, escriturário, de 26 anos. Declara-se Gentleman e casado de 48 anos de idade. England and Wales Census, 1861, filme n.º 101815833, imagem 141, linha 5.
[4] The Law Times Reporter of Cases Decided in the House of Lords, the ..., Volume 15, 1866, 31 de Julho, terça-feira, Doglioni v. Crispin, p. 44-49.
[5] Tristram, T. H.; Searle, Richard; Middleton, John G., The New Reports, Courts of Probate and Divorce, "Sharpe vs. Crispin", T & J.W. Johnson & Co. Law Booksellers, Philadelphia, #535 Chestnut Str., 1870, (p. 610-621) p. 612.
[6] The Law Journals, 32, 1862-1863, Probate 27 May 1863, Crispin v. Doglioni, p. 169. The Law Times Reporter, Vol. 3, Crispin v. Doglioni, 1860, p.179
[7] The Law Times Reporter of All the Cases Argued and Determined, Vol. XV, New Series, Sept 1866-Sept 1867, Horace Cox-Strand, Londres, p. 44-49.

William Crispin 7.d) acima, filho de William Crispin e Mary Walsh, solteiro, cego dos dois olhos, “que não sabia nem podia escrever”, mas também pertencente à Casa de Comércio. Não deixou filhos mas deixou testamento feito em 6 de Março de 1828. Deixou um legado ao seu irmão John Crispin da cidade do Porto e o remanescente para ser dividido igualmente pelos irmão e irmãs de Faro, José Barr Crispin, Dona Maria Doglioni e Dona Teresa Crispin, nomeando executor José Barr Crispin e na sua falta o cunhado Lazaro Doglioni. O testamento foi verificado e traduzido em inglês com data de Setembro de 1845, provavelmente a data próxima do falecimento[1]. Por sua vez o irmão José Barr Crispin também lhe faz um legado no seu testamento.
[1] Não se encontra o, ou os, livros de óbitos da paróquia de São Pedro de Faro entre 1839 e 1851. No livro de óbitos da Sé tampouco se acha registado o assento entre 1843 e 1846. 


José Barr Crispin, 7.e) acima, filho de William Crispin e Mary Walsh, também solteiro, aparentemente sem descendência, talvez fosse o gerente sénior da Casa Comercial em Faro, pois é escolhido por todos os irmãos como executor testamentário em conjunto com o cunhado Lázaro Doglioni. Fez o seu próprio testamento a 6 de Março de 1828. Deixou um legado ao seu irmão John Crispin júnior da cidade do Porto e o remanescente para ser dividido igualmente pelos irmão e irmãs, William Crispin, Dona Maria Doglioni e Dona Teresa Crispin, nomeando executor o cunhado Lazaro Doglioni Spiridion. É assinada e passada uma cópia a 17 de Fevereiro de 1841. Num codicilo posterior, de 28 de Maio de 1838, altera o valor deixado ao irmão John Crispin e faz ainda os seguintes legados a familiares: aos sobrinhos John Crispin, Jorge Crispin, Dona Carlota Hair [estes os filhos do irmão John Crispin júnior], John William Crispin, George Richard Crispin e eventualmente a cunhada Carlota Hair que vivia em Richmond, Surrey e com quem viviam os filhos de John Crispin júnior. O apelido Hair era o da defunda mulher de John Crispin júnior.]; a Dona Elouise Doglioni, [irmã de Lázaro Doglioni seu cunhado]; ao co-sponser [sócio] Diogo Frederico e aos afilhados Lázaro, João, José, Diogo e Carolina filhos de Diogo Frederico [primo irmão do testador]; à sua afilhada Maria José Pereira [de Mattos, filha de Diogo Frederico Barr Crispin já referido acima e que, 3 anos antes, tinha casado com António Joaquim Pereira de Mattos]. De seguida lega uma verba a outro co‑sponser, Thomas Pinder*, referido como tendo ajudado o testador no passado sob condição de que ajude o Executor, Lázaro Doglioni, no futuro até ao fim do execução do testamento. Deixa legados aos afilhados José Luís Broa, e a Manuel de Sousa. 


Assinaturas no assento do 2.º casamento de Manuel José com Teresa de Jesus em 10 de Julho de 1834 em São Pedro, Faro. Curiosamente no 1.º casamento de Manuel José com Maria das Dores assinam Lázaro Doglioni e José Barr Crispin.

Deixa outros legados em forma de rendimento enquanto forem vivas a Teresa de Jesus e a Ana Maria Maurícia. Deixa um legado à empregada Maria da Conceição. Deixa um legado substancial em forma de mensalidade ao afilhado Lázaro Maria Frederico [filho natural do doutor Lázaro Doglioni[1]] “para o que seja necessário até que ele complete os estudos em Lisboa”. De seguida contempla com legados a Dona Ana Vitória Joaquina Simas e a seus filhos João José de Simas, Maria Emília e Maria Paula. Acrescenta um legado a João José Simas para que ele complete os seus estudos em Paris, as matrículas durante seis anos na Escola Médica de Montpelier, e uma verba para que possa viajar de volta a Portugal [veja-se, vida posterior, link na nota[2]]. Deixa um legado a Dona Maria Bárbara Leocádia, residente em Lisboa; a Maria Marphasou outro legado; e a uma empregada Hester Sprod [empregada de Maria Crispin Doglioni] outro legado. Deixa legados aos empregados da Casa Comercial: Manuel Dias, João Martins, José Lourenço, João Evangelista, José Joaquim Araújo e a António Martins, ao Sr. Pedro Joaquim das Barcas, ao António dos Santos Dentinho, e ao jardineiro da Casa Comercial, José de Sousa. Ainda faz outros legados a Dona Teresa Osório e a Bárbara Júlia Muxim deixou a renda de casa paga até ao fim da vida dela. Deixou ainda esmolas a todos os pobres de Faro, a 16 reformados e pelas almas do purgatório. Por fim, en passant, pede a intersecção da executora do testamento para cuidar de Maria Efigénia, viúva de Pedro Gomes… veja-se a referência à filha ilegítima de John Crispin sénior irmã inteira (ou não) de Diogo Frederico (Barr Crispin). Fecha a relação de legados “com a vontade de deixar a seu cunhado Lazaro Doglioni 200 moedas em ouro para que compre um anel em sua memória não deixando de lhe desejar uma vida longa”. Nomeia Executora do seu testamento a sua irmã Maria Doglioni. Uma última nota importante deste codicilo na última linha se diz que foi “Extracted form the Registry of Her Majesty’s Court of Prerogative in Ireland”. Em 1817 Joseph Barr Crispin era vice-cônsul em Faro[3] o que noutra fonte se confirma[4]. Em 1822 também o era[5]. No Almanaque de 1825 e no de 1829, p. 91-92, vem referidos José Barr Crispin como vice-cônsul em Faro e o John Crispin como cônsul no Porto.

* Filho de outro Thomas Pinder e Isabel Pinder, neto paterno de Thomas Pinder e Maria Pinder, neto materno de Lazaro Tullock e Isabel Tullock, que se reconciliou com a Igreja Católica a 21 de Maio de 1830, casando a 5 de Agosto desse mesmo ano com Mariana Rosa Pereira, filha de pais incógnitos, sendo testemunhas José Barr Crispin e Diogo Frederico Crispin. (Faro, São Pedro, C-6-153 imagem 155) Ainda em 1839 era agente consular da Inglaterra em Faro. Residia no Marim, Quelfes, onde em 1852 estava casado com Maria da Conceição, era proprietário de salinas e de um moinho de maré conhecido como "moinho do inglês".(ADF)

Contactei os National Archives of Ireland, Diocesan & Prerogative Wills 1595-1858 e aparece a informação de que um Joseph Crispin apresentou ou alguém accionou no Prerogative Court um testamento em 1846 e/ou em 1854. No primeiro ano aparece a residência como Barracton Suburbs[6], Cork ou mesmo em Cork no ano seguinte. Cork dista 130km de Waterford. Coincidência?

Assinatura de John Crispin sénior e seu sobrinho José Barr Crispin como testemunhas no casamento de João Paulo Cúmano e Antónia Maria Marina Doglioni.

Joseph (José) Barr Crispin reconciliou-se com religião Católica, em 1841, quando já estava com saúde deteriorada, não obstante ter testemunhado oficialmente outros casamentos católicos em São Pedro (ex. Thomas Pinder). Diz o seguinte: 

Aos 8 dias do corrente mês de Janeiro do presente ano de 1841, foi reconciliado e confirmado em a nossa Santa Religião Católica Romana, precedendo a Licença da Autoridade competente pelo perigo de vida em que se achava e em sua própria habitação, José Barr Chrispin, Cônsul Inglês, residente na Rua de São Pedro, onde lhe pus os Santos Óleos com todas as formalidades que em tais casos determina a Constituição Diocesana e o Ritual Romano, sendo padrinho e especial testemunha o Doutor Lázaro Doglioni e juntamente sua família que presente se achava: de estado de solteiro, filho de Guilherme Chrispin e Dona Maria Walsh(?) Chrispin, todos de Modbury, no mesmo Reino de Inglaterra e que há muitos anos vivia nesta cidade de Faro, cujos avós maternos e paternos ignoro seu nome e naturalidade por não me serem declarados e para constar declaro abri este termo que assino. (a) Prior Inácio José Tavares Bello. Declaro que este termo não vai em seu próprio lugar por ser lançado por engano em outro livro.[7]

Documento de Reconciliação de José Barr Crispin, Faro.

Tinha feito um testamento em 1828 e acrescentado um codicilo em 1838. Nesses documentos é referido que é solteiro e que o irmão John Crispin estava no Porto (entre 1828 e 1831[8]). Em 1832 já não é referido nenhum cônsul para Faro enquanto que para la Coruña era referido Mr. Crispin, presumivelmente John Crispin júnior.

Morava em Faro na Rua de São Pedro onde a família sempre tinha vivido.[9]


[1] Aparece referido no rol de confessados de Loulé de 1840 com a profissão de cirurgião declarando-se solteiro e de 25 anos de idade pelo que se presume tenha nascido cerca de 1815. Pereira, Vera Lúcia Cavaco, Rol dos Confessados Freguesia de São Clemente da Vila de Loulé – 1840, V.P.-Rol dos confessados Freguesia de S. Clemente.2001-2002.p.373-389, (p. 2. da versão on-line). Nesta data vivia na Rua da Igreja em Loulé com uma criada, Maria da Assunção, de idade de 55 anos.
Foi autor de FREDERICO, Lázaro Maria, Algumas considerações acerca dos meios propostos para o tratamento dos aneurismas da arteria iliaca externa preferido à ligadura immediata pelo methodo de Anel, Lisboa, 1839 (manuscrita), citado por Garnel, Maria Rita Lino, Da Régia Escola de Cirurgia à Faculdade de Medicina de Lisboa, O Ensino Médico: 1825-1950, Universidade de Lisboa, séculos XIX-XX, Volume II, Lisboa, 2013, pp. 538 – 650.
[3]  The Royal Calendar and Court and City Register for England, Scotland, Ireland, and the Colonies for the year 1822, William Stockdale, Londres, 1817/1818, p. 150.
[4] Johnstone’s Commercial Guide and Street Directory Office, Bank of England, Londres, 1817, p. 129.
[5]  The Royal Calendar and Court and City Register for England, Scotland, Ireland, and the Colonies for the year 1822, William Stockdale, Londres, 1822, p. 142.
[6] Onde existe atualmente um museu militar.
[7] ANTT, Faro, São Pedro, B-12-122v. imagem 126.
[8] British and Foreign State Papers, 1830-1831, James Ridgway, Piccadilly, Londres, 1833, p. 67, 118, 216, 286.
[9] A sua casa no gaveto formado pelos n.º 10-12 da Rua de São Pedro e n.º 52 da Rua do Prior, em Faro é um edifício representativo da arquitetura chã, datável da segunda metade do séc. XVIII. Serviu de morada à Família Crispin, nomeadamente a José Barr Crispin, cônsul de Inglaterra. Ocupa, na totalidade, o espaço do gaveto formado pelas Ruas de S. Pedro e do Prior. A fachada original da Rua de São Pedro exibe, no nível superior, quatro janelas de sacada cornijadas e, no piso térreo, uma porta almofadada. Posteriormente, foram abertos dois vãos de acesso, e junto ao beirado, foi acrescentada uma ornamentação em trabalho de massa. No alçado voltado para a Rua do prior é marcado por uma janela de sacada. A porta central abre para um átrio do qual parte uma escadaria de acesso ao primeiro piso ocupado pela sala de leitura, gabinetes da direção e salas de depósito da documentação. No pátio de entrada, nitidamente setecentista, registe-se a presença de um arco com ornatos concheados, tendo ao fundo óculo a abrir para um oratório. Acede-se ao piso nobre por uma escada de dois lanços. Naquele se localizavam as salas de aparato (tectos com ornatos de masseira de estuque) e o espaço vivencial da família proprietária, enquanto o rés-do-chão era ocupado pela cozinha, apoios e dependências da criadagem. O último piso foi, originalmente, ocupado por sótãos aos que se acrescentou, posteriormente, uma estrutura de vigia, orientada à ria e ao mar, que possibilitava o acompanhamento das atividades económicas que aí se desenvolviam e eram do interesse familiar. (Património Cultural n.º 333608. É Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 1/86, DR, I Série, n.º 2, de 3-01-1986).  O edifício, no final do Séc. XIX foi herdado e era a antiga residência da Família Bívar Cúmano; desde aproximadamente 1975 até 1997 funcionou no edifício a sede do Arquivo Distrital de Faro, depois transferido para edifício construído de raiz inaugurado em Fevereiro desse ano.


João Crispin Júnior, 7. f), acima, filho de Willliam Crispin e Mary Walshnão necessariamente o mais novo dos irmãos pois não sabemos as datas de nascimentos para os pôr por ordem.

John Crispin, júnior, o diplomata, linha extinta. Não há a certeza se nasceu em Modbury se, pelo contrário, nasceu na Irlanda em Waterford, de acordo com as sugestões apresentadas no processo da sua herança e as sugestões no caso do seu filho que correu em Londres como se refere a seguir. Segundo o que se apurou nesse processo que correu a 9 de Fevereiro de 1869 provaram-se os seguintes factos[1]: John Crispin nasceu em 7 de Janeiro de 1769, em Faro ou Irlanda, como se disse não há a certeza de ter sido na Irlanda onde o seu pai casou, se em Faro, o que não ficou definitivamente esclarecido. Pouco tempo depois do seu nascimento já se encontrava em Inglaterra e em 1792, com 23 anos, já tinha ligações à embaixada britânica em Lisboa, estando a viver na cidade. Em 5 de Abril de 1801 casou em Lisboa[2] com Isabella Anne Hair, nascida em Lisboa 19 de Outubro de 1774 e batizada a 8 de Fevereiro de 1775[3], filha de Patric Hair e de Dorothy Sharpe, também casados em Lisboa a 7 de Fevereiro de 1767[4] todos nascidos em Lisboa e registados na Bristish Factory. Isabella Ann Hair foi irmã de Willoughby Fraser Hair nascido a 29 de Março de 1770 e que morreu com 37 anos em Calcutá a 20 de Julho de 1807[5], Charlotte Hair nascida a 26 de Março de 1778 (e que foi amparo dos sobrinhos Isabella-Francis, George Richard e John William Crispin em Richmond), e Joseph Hair nascido em 27 de Julho de 1781 tudo em Lisboa. 

Houve um Willoughby Fraser Hair, nascido em Calcutá a 14 de Junho de 1800 e batizado a 9 de Agosto de 1801 filho de um W.T.Hair. Ou outro Willoughby Fraser Hair que casou na Catedral de Calcutá a 2 de Janeiro de 1823 com Miss C. L. Bourbon[6] que pode ser o anterior. No London Gazette, part 1 aparece a seguinte notícia: Willoughby Fraser Hair, of Entally, in the Twentyfour Pergunnahs, an assistant to Messrs. McKenzie, Lyall and Company – a prisoner in the gaol at Calcuta. Date of Gazette, containing notice, August 19, 1835[7]

Ou outro que casou em Calcutá, Bengala na Índia, cujo pai tinha o mesmo nome, a 4 de Janeiro de 1854 com Elizabeth Hopkins[8]. E que tinha uma irmã de nome Jane Wood que casou também em Calcutá em 30 Junho de 1853 com John Wall[9]. Estes nomes e lugares vêm referidos no testamento de John William Crispin, referidos a seguir.


John Crispin Júnior e Isabella Anne Hair foram pais de:

1. Charlotte Elizabeth Crispin nascida a 26 de Setembro e batizada a 29 de Outubro de 1802 e falecida em Lisboa a 27 de Julho de 1803, s/d[10];

2. George Richard Crispin, nascido em Lisboa a 11 de Janeiro de 1804 e batizado a 10 de Fevereiro do mesmo ano em Lisboa[11], e falecido em Richmond, Surrey, em 1 de Setembro de 1862 num asilo de dementes mentais, s/d. a sua história vai ser referida abaixo;

3. John William Crispin que nasceu a 16 de Janeiro de 1805 e batizado a 28 de Fevereiro de 1805, em Lisboa[12], e faleceu em Richmond com testamento de que tenho cópia, s/d;

4. Isabella-Francis Crispin nascida a 12 de Novembro de 1806 e batizada a 18 do mesmo mês e ano em Lisboa[13], tendo falecido com 17 anos de idade a 26 de Agosto de 1823 em Richmond[14] onde vivia a família da sua mãe, s/d.

John Crispin júnior, entre 1801 e 1804, geriu os negócios dos senhores Holford e Gonne em Lisboa. Em 1804 nasceu-lhe um filho que se chamou George Richard Crispin, e em 1806 enviuvou morrendo‑lhe a mulher, com grande probabilidade em consequência do parto da filha Isabella-Francis. 

Outra fonte refere que John Crispin foi eleito para chefiar a “Factory[15]” que era a associação de mercadores ingleses em Portugal, com a sua própria capelania, e que foi eleito logo a seguir à saída dos franceses do país.[16]

Em 1811 foi nomeado Cônsul Inglês no Porto, confirmado a 17 de Junho de 1812[17] com autorização de cobrar £700[18] em taxas portuárias que perfaziam o valor total da sua remuneração. 

John Crispin foi referenciado como Cônsul do Inglaterra no Porto[19], é referido pelo Coronel Charles Shaw, nas suas Memórias Pessoais e Correspondência[20], e a sua opinião não é boa. O comentário vem a propósito da morte de um militar britânico e o seu enterro na cidade do Porto, dizendo o seguinte: 

Dois dias depois da nossa chegada ao Porto, estávamos a sepultar o Tenente Boulger, que morreu das suas feridas. Pobre colega! Ele soube logo que as suas feridas eram mortais. Estava deitado sozinho no bosque tendo os homens avançado, e quando eu voltei disse-me que estava mortalmente ferido, exclamando: “Então, fiz ou não fiz o meu dever?” Quando transportavamos o corpo até ao local onde se enterravam os mortos ingleses, chegou uma mensagem de Mr. Crispin, o Consul Britânico, a dizer-nos que não autorizava que se enterrasse o corpo ali, nem com honras militares. Tivemos pena do Boulder; mas confesso o meu desejo, nesse momento, que o Mr. Crispin viesse e tentasse retirar-nos o corpo.

Estávamos muito magoados por essa posição pouco educada e insensível; estava convencido que se o nosso Governo em Inglaterra não nos tivesse sido favorável, nunca teríamos embarcado; esta acto do Cônsul provou-me que ele era Miguelista, e que o Governo de Sua Majestade não aprovava a sua conduta e que por isso foi recambiado para La Coruña, mandando em seu lugar o excelente Coronel Sir T. Sorrell com perspectiva mais neutral.

O cerco do Porto ocorreu entre o desembarque de D. Pedro IV no Pampelido a 8 de Julho de 1832 e a aclamação da Rainha D. Maria II e da Carta Constitucional em 1834.

Existe vária correspondência de John Crispin datada do Porto em 1831 referente a reclamações dos comerciantes locais e as taxas desproporcionadas sobre o algodão cobradas aos portugueses.

Voltando a um dos seus filhos, George Richard Crispin. Alguns anos antes de 1812 George Richard foi enviado para Inglaterra para iniciar a sua formação, provavelmente depois da morte da mãe e em companhia dos dois irmãos sobreviventes, John William e Isabella-Francis. Aparentemente, em 1814, estava numa escola em Twickenham e constava que já frequentava a escola há anos. As férias letivas eram passadas em Richmond com a sua tia Miss Charlotte Hair, irmã da mãe, e da avó Dorothy (Sharpe) Hair. Fora os poucos anos a seguir ao seu nascimento só voltou a estar em Portugal e na cidade do Porto entre 1823 e 1826/7. George Richard, segundo os advogados e testemunhas, detestava Portugal. Sabe-se que a partir de 1830 ficou sob os cuidados do Dr. Probyn ficando sob tratamento médico mesmo antes dessa data. Em 1840, foi admitido no manicómio do Dr. Atkins, Grove House Lunatic Asylum, Stoke Newington Green, Middlesex, tendo sido declarado em Junta Médica, em 1858, doente mental severo e onde morreu a 1 de Setembro de 1862. Tinha residência em Stoke Newington Green, Middlesex. Aparentemente a sua incapacidade mental declarou-se antes de cumprir 25 anos, muito provavelmente antes e desde a puberdade. Tinha feito o seu testamento a 26 de Janeiro de 1857 onde eram nomeados seus executores testamentarios os seus primos Frederick Sharpe e Sibilla Sharpe. Em 9 de Fevereiro de 1869 deu entrada em Londres o processo Sharpe & Sharpe v Crispin sendo que este Crispin era o filho natural de Henry Crispin que pretendia ser herdeiro único na disputa da herança, sendo que o processo que opunha o mesmo pretendente e filho natural de Henry Crispin a Maria Doglioni passou a chamar-se Crispin v. Cúmano por morte de Maria Doglioni[21]. Em 23 de Setembro de 1869 foi passada uma Carta de Administração dos bens pessoais e herança de dito George Richard no Arquivo dos Registos a Justino Cúmano, o único executor testamentário de Maria Crispin Doglioni, viúva, tia e único parente próximo e herdeira do dito George Richard Crispin. (Inglaterra e Pais de Gales, índice de Testamentos e Sucessões, 1853-1943, p. 374-375.)  

Em 1832 John Crispin júnior foi nomeado Cônsul na Corunha onde ficou até 1843 de onde se reformou com uma pensão do governo britânico. 

Numa outra obra já se faz referência ao Mr. Crispin em La Coruña[22], em 1837, citada na correspondência havida com Londres[23]:

Um longo relatório enviado pelo Cônsul Crispin na Coruña, o porto mais nortenho, indica que houve numerosos Carlistas, ou homens com perspectivas francamente reacionárias que participaram nas eleições e que foram eleitos numa candidatura moderada. Mr. Crispin providenciou informação relativa ao número exato de votos que cada candidato obteve e a respectiva filiação partidária

Em 1840, no Almanaque Gotha[24], aparece como cônsul em La Coruña e ainda em 1843[25], como John Crispin, esquire.

Como nota curiosa, esta informação:
En agosto de 1836, por iniciativa do cónsul británico don Juan Crispín, iniciáronse os trámites para a construción dun cemiterio para súbditos ingleses.[Cemitério Britânico e o Xardin de San Carlos, La Coruña] A morte do oficial de fragata inglés, B. Endymion e o seu humilde lugar de enterramento ao ar libre, determinará o lugar de edificación do chamado popularmente camposanto protestante. En 1838 trazouse un cadrado de 36 varas de lado que tiña como centro a tumba do oficial inglés. En 1867 o arquitecto Ciórraga assinou os planos do cemitério inglés e inaugurou-se na primavera de 1868.[26]

Depois de se reformar foi residir para Inglaterra até à sua morte em 15 de Setembro de 1846, em Richmond, Surrey, England[27] com 78 de idade. Segundo se apurou este John Crispin júnior nunca teve ligação nenhuma com os negócios da família em Faro, tendo começado a sua actividade laboral em Lisboa coadjuvando o Cônsul Britânico.

[1] The Law Reports: Court of Probate and Divorce, Vol. I, Sharpe & Sharpe v. Crispin, 9 de Fevereiro de 1869, p.611-613-622.
[2] British Factory Chaplaincy, Lisboa, Portugal Matrimónios, filme FHL 477.648.
[3] British Factory Chaplaincy, Lisboa Portugal Batismos, 1570-1910, filme FHL 477.648.
[4] British Factory Chaplaincy, Lisboa Portugal Matrimónios, 1670-1910, filme FHL 477.648.
[5] Índia Deaths and Burials, 1719-1948, filme FHL 498.609.
[6] Asiatic Journal Volume 15, 1823, p. 642.
[7] London Gazette, Part 1, p. 516.
[8] Índia Marriages, 1792-1948, FHL 498.992.
[9] Índia Marriages, 1792-1948, FHL 498.991.
[10] British Factory Chaplaincy, Lisboa Portugal Batismos, 1570-1910, film FHL 477.648.
[11] British Factory Chaplaincy, Lisboa Portugal Batismos, 1570-1910, film FHL 477.648.
[12] British Factory Chaplaincy, Lisboa Portugal Batismos, 1570-1910, film FHL 477.648.
[13] British Factory Chaplaincy, Lisboa Portugal Batismos, 1570-1910, film FHL 477.648.
[14] The Gentleman’s Magazine and Historical Chronicle, Volume 93, part 2.
[16] Shaw, L.M.E., The Anglo-Portuguese Alliance and the English Merchants in Portugal, 1654-1810, Routledge Taylor & Francis Group, London, 1998/2017, Capítulo V, p. n/a, nota 8.
[17] Urban, Sylvanus, Gentleman’s Magazine, and Historical Chronical, from July to December 1812, Vol. LXXXII, Vol. 112, Printed by Nicholas, Son & Bentley, Londres, 1812, p. 81.
[18] Confirmado em 5 de Março de 1817 in Estimates & Accounts: Army, Navy, Civil list; pensions, &c. , Vol. VIII, 1917, p. s/n (105 on-line).
[20] Shaw, Crnl Charles, Personal Memories and Correspondence of the Portuguese Service, and Late Brigadier-General, in the British Auxiliary Legion of Spain, Comprising “A Narrative of the War” for Constitutional Liberty in Portugal and Spain, from its Commencement in 1831 to the dissolution of the British Legion in 1837, em dois volumes, Henry Colburn Publisher, Londres, 1837, p. 397-402.
[21] The Law Reports, Courts of Probate and Divorce, (James Redford Bulwer Edts), Vol I., 1865-1869, William Clowes and Sons, Londres, 1869, p. 611-629.
[22] Marichal, Carlos; Spain (1834-1844) New Society, Tamesis Book Ldt, Londres, 1977, p. 126-127.
[23] Public Record Office, F. O. 185, vol.167, “Consular Correspondence with Madrid”, July-December, 1837, letter from Consul Crispin to Villiers, dated November 25th, 1837, Coruña, and marked P-81-1-29.
[24] Almanach Gotha pour l’Année 1840, Chez Justus Perthes, 77éme edition, Gotha, 1840, p. 30.
[25] The Small Edition of the Post Office London Directory, 1843, comprising among other informations Official Directory, Commercial Directory, Court Directory, Parliamentary Directory, Postage Directory, Banking Directory, etc. etc., the 44th Annual Publication, W. Kelly & Co., Londres, 1843, p. 21, 59.
[27] England, Surrey Parish Registers 1536-1992, Family Search, film FHL 991.697.

Balandra espanhola que fazia a entrada das Barras de Faro, Olhão e Vila Real. (Internet)


Descendência de Maria Efigénia, filha natural de John Crispin, Sénior, N.º 4.

O facto de ambos (Maria Efigénia e Diogo Frederico) virem explicitamente incluídos no testamento e especialmente no 2.º codicilo como “afilhados ou filhos naturais” tem gerado alguma controvérsia no que respeita à identificação precisa das informações pertinentes. Se no casamento do filho Pedro se diz que a mãe é natural de Faro já no próprio casamento se diz que é natural da igreja Matriz de Loulé, que corresponde ao orago de São Clemente. 

Tendo em conta que o casamento ocorreu em 1808, com a idade estimada de 20 anos procurei e achei um assento possível na paróquia de São Clemente em Loulé, que é o seguinte: 

Maria, filha de pais incógnitos, exposta e dada a criar a Ana Joaquina, viúva de José do Nascimento da Rua de Portugal desta vila, foi por mim batizada nesta matriz de licença do Rev. P. da mesma e lhe pus os Santos óleos em os 13 dias do mês de Fevereiro de mil setecentos e oitenta e oito, e foi padrinho o Tesoureiro desta Igreja Francisco de Borja Castelo Branco, de que fiz este termo que o dito Rev. Prior comigo assinou.[1]

A data de nascimento é possível. O nome próprio pelo qual é referida “Maria Efigénia” corresponde ao facto de todos os neófitos serem referidos só pelo primeiro nome próprio, e o clincher é ela ter sido dada a criar a Ana Joaquina*. É coincidente com o que se diz no testamento, que Maria Efigénia foi viver para Estoi em casa de Ana Joaquina* Já lhe tinha sido dadas outras crianças. Uma exposta, Maria, que faleceu a 30 de Setembro de 1786 já ela era viúva de José do Nascimento, pedreiro. (ANTT, Loulé S. Clemente, O-8-171 imagem 181.); uma outra exposta também, Manuel, que morre a 27 de Fevereiro de 1785 (ATTT, Loulé S. Clemente O-8-93v. imagem 98); outra Antónia falecida menor a 5 de Outubro de 1783, não menciona o marido (ANTT, Loulé S. Clemente, O-8-61 imagem 64);

Maria Efigénia casou de facto em Estoi com um Pedro Gomes, também como é referido no testamento. O assento diz o seguinte: 

Aos nove dias do mês de Abril do Ano de 1808 perante mim Manuel da Silva e Mendonça, pároco desta paroquial igreja de São Martinho de Estoi, e das testemunhas abaixo assinadas, António Gago, oficial de sapateiro deste povo, e José de Sousa, Barbeiro, também deste povo, se casaram por palavras de presente observada a forma do Sagrado Concílio Tridentino e Constituições deste Bispado, = Pedro Gomes =, soldado da Praça de Faro, solteiro, natural desta freguesia, filho de outro Pedro Gomes e Joaquina Maria, neto paterno de avós incógnitos, materno de Amaro Fernandes e Rufina Pereira da freguesia do Ameixial, com = Maria Efigénia = solteira, batizada na Matriz de Loulé, filha de pais incógnitos, e moradora neste lugar de Estoi, de que fiz este termo, que assinei, dia mês e era ut supra. O pároco (a) Manuel da Silva e Mendonça, José de Sousa Teixeira, António Gago Pereira Teixeira.[2]

Passo a dar uma olhadela à família de Pedro Gomes, sogro de Maria Efigénia pois os Crispin chegam a intervir. 

O pai do noivo, o outro Pedro Gomes, era natural da Vidigueira, Beja, também ele filho de pais incógnitos, casado com Joaquina Maria, do Rosal, Estoi. Falta o livro de Casamentos de Estoi entre 1788 e 1800 pelo que não há como confirmar. Deste casamento houve registados pelo menos 6 filhos além do referido acima, tudo em Estoi: 

1) Ana, n. a 18 de Maio de 1790 e b. a 25[3] de Maio sendo padrinho o padre Francisco Pestana. 

2) Pedro Gomes, acima casado com Maria Efigénia n. 21 de Agosto de 1791, b. a 28[4], sendo padrinhos o Capitão Manuel Freire, de Estoi. A referência ao seu óbito vem no testamento de José Barr Crispin, sobrinho de John Crispin Sénior e primo-irmão de Diogo Frederico e Maria Efigénia quando se lhe refere como “viúva” de Pedro Gomes. 

3) Joaquim José Gomes, casado com Maria Benta de quem houve um João n. 22 de Junho de 1807, b. 29[5], sendo padrinhos a sua tia Ana Rosa, solteira, e o padre de Quelfes, Joaquim José Mendes. 

4) Bartolomeu Gomes, casado com Maria de São José, de São Brás, (filha de Manuel Pereira e Ana de Jesus, ambos de São Brás) e pais de uma Joaquina[6], n. a 22 de Fevereiro de 1808 e b. 29, sendo padrinho Manuel das Neves Carvalho, de Estoi e tocou com a coroa de Nossa Senhora, Francisco de Brito, de Estoi. 

5) António Gomes, que faleceu maior a 29 de Março de 1820[7], e vivia em casa de seu cunhado António Gago, provavelmente casado com a Ana Rosa. 

6) Uma segunda Ana (provavelmente a tia Ana Rosa, abaixo), n. a 12 de Janeiro de 1795, e b. a 18[8], sendo padrinhos os padres Manuel Madeira Nobre e Manuel da Silva Nobre, ambos de Estoi, 

Joaquina Maria faleceu em Estoi a 6 de Fevereiro de 1795[9] e Pedro Gomes sénior voltou a casar com Helena Teresa e Gouveia, de Loulé, filha de José do Nascimento e Ana Joaquina, com a qual teve, pelo menos mais três filhos. Esta Ana Joaquina (viúva de José do Nascimento) foi quem "criou" Maria Efigénia. Assim, a segunda mulher do Pedro Gomes (sénior) era "irmã" de Maria Efigénia.   
Pedro Gomes e Helena Teresa viviam na Alcaria Grande, Estoi, quando morreu Bernardino. Não se conseguiu saber o local deste segundo casamento – nem em São Clemente de Loulé nem em Estoi de onde faltam os assentos de casamentos entre 1788 e 1800. Uma nota curiosa: Já estavam casados em 1802 quando apadrinharam Pedro[10], filho de António Martins Palmeiro e Catarina da Encarnação. Este António Martins Palmeiro era irmão inteiro de Josefa da Cruz que casou com Manuel de Sousa Esquível e que foram avós do coronel António Esquível David casado com Rita de Mendonça Pires de quem descendem José, António, João e Teófilo Esquível. 

Do segundo casamento de Pedro Gomes com Helena Teresa e Gouveia houve a: 

7) João, n. 10 de Outubro de 1802, b. 18[11]. Padrinhos: tocou por madrinha o Reverendo Padre Frei Bernardino, da Vidigueira, Presidente do Convento de Santo António de Faro, por procuração de D. Teresa, solteira, filha de Guilherme Crispin e D. Maria Crispin (Walsh de solteira) de Faro. 

8) Bernardino, n. 1 de Abril de 1805, e b. 16[12], e falecido dois anos depois a 4 de Junho de 1807 de bexigas. Os padrinhos de batismo foram Manuel Marques de Faro (será o mesmo padrinho de Teresa?) e D. Maria Crispin, solteira, e tocou com procuração sua o Reverendo Padre Bernardino, da Vidigueira, religioso de Santo António de Faro.

9) Teresa, n. 2 de Setembro de 1807, em Estoi, e b. 10[13], sendo padrinhos Manuel Marques Ramalho, natural de Mértola, e Nossa Senhora. 

As ligações e demonstrações de apoio à família dos primos-irmãos continua. Fica assim explicada a intervenção dos "Crispin" nestes apadrinhamentos.  Nada mais foi explorado desta linha.


[1] ANTT, Loulé, São Clemente, B-18-192v. imagem 206.
[2] ANTT, Estoi, São Martinho, C-6-69v.  imagem 73.
[3] ANTT, Estoi, São Martinho, B-16-? imagem 4.
[4] ANTT, Estoi, São Martinho, B-16-28 imagem 29.
[5] ANTT, Estoi, São Martinho, B-1-117/118 imagem 123.
[6] ANTT, Estoi, São Martinho, B-17-142 imagem 147.
[7] ANTT, Estoi, São Martinho, O-9-8v. imagem 10.
[8] ANTT, Estoi, São Martinho, B-16-88v./89 imagem 93.
[9] ANTT, Estoi, São Martinho, O-7-88 imagem 92.
[10] ANTT, Estoi, São Martinho, B-16-214/214v. imagem 220
[11] ANTT, Estoi, São Martinho, B-16-213 imagem 219
[12] ANTT, Estoi, São Martinho, B-17-58/58v. imagem 61/62
[13] ANTT, Estoi, São Martinho, B-17-126/126v imagem 131/132.
Descendência de Diogo Frederico Barr Crispin, 4.a), filho natural de John Crispin, Sénior, N.º 4 e irmão inteiro ou meio irmão de Maria Efigénia.

Lamentavelmente não se encontrou o assento de batismo de Diogo. Mesmo sendo estes assentos difíceis de encontrar há ainda a ter em conta que faltam muitos assentos por incúria do pároco conforme escreve o Senhor Bispo na sua Visitação. Ainda assim foi encontrado o assento de casamento datado de 13 de Fevereiro de 1806 nesta paroquial igreja de Nossa Senhora do Rosário deste lugar de Olhão, na minha presença e das testemunhas, o Capitão Gaspar Rodrigues Correia e Joaquim Viegas Esperança: contraíram o santo sacramento do matrimónio com palavras de presente in facie eclesiae na forma que determina o Sagrado Concílio Tridentino e Constituições deste Bispado do Algarve, = Diogo Frederico =, solteiro, natural da cidade de Faro, filho de pais incógnitos com = Guimar Teresa =, solteira, natural da cidade de Tavira, filho de Lourenço Martins e Mariana Teresa da cidade de Faro, neta paterna de Manuel Martins e Ana Maria de Faro, neta Materna de José Fernandes e Maria Teresa, de Faro, porquanto corridos os banhos aonde competia e feitas as mais diligências do estilo, lhes não resultou impedimento algum canónico, que lhes obste o matrimónio presente. Obtiveram mandado para se receberem da Reverenda Câmara Eclesiástica que ficou registado a folhas sessenta e uma. Em fé do que fiz este termo que comigo assinaram dia, mês e ano ut supra. (a) O Pároco António Joaquim Palma, Gaspar Rodrigues Correia, Joaquim Viegas Esperança. (Olhão, Nossa Senhora do Rosário, C-5-63v. imagem 66)

Ambas as testemunhas aparecem referenciados como resistentes contra o domínio das tropas de Junot, o capitão Correia era capitão de Ordenanças, e Joaquim Viegas que depois foi Vereador, e Vereador Mais Velho da Câmara Municipal de Olhão em 1826. Provável irmão do Reverendo Mestre Escola de Faro Manuel Viegas Esperança.

No assento do primeiro filho, a mãe aparece referida como Guimar Teresa de Jesus, natural de Tavira. Esta combinação de nomes não volta a aparecer em nenhum dos batizados dos filhos nem no seu óbito, só "Guimar Teresa". Mas não se entende que a naturalidade fosse repetidamente, no seu casamento e em todos os assentos de batizados dos filhos, afirmada como natural de Tavira quando na verdade foi natural da mesma de São Pedro de Faro. Ou foi engano ou fez parte de um plano de escamotear a informação referente a tudo o que dizia respeito a Diogo Frederico.



A cota marginal refere "Guimar" filha de Lourenço Martins e de Mariana Teresa. O texto diz:
Aos onze dias do mês de Novembro de mil setecentos e oitenta e um anos (1781), nesta igreja matriz de São Pedro [Faro], batizei e pus os Santos Óleos a Guimar que nasceu a 3 do dito mês, filha de Lourenço Martins, soldado pago, e de sua mulher Mariana Teresa, naturais desta cidade de Faro, havida do primeiro matrimónio da parte de ambos, neta paterna de Manuel Martins correeiro natural da freguesia de São Brás termo desta mesma cidade (2 palavras enganadas seguidas de "digo") e de Ana Maria natural desta mesma cidade; e materna de José Fernandes, já defunto, e Maria Teresa, naturais desta dita cidade de Faro. Foram padrinhos Diogo Figueira de Figueiredo* e Guiomar Teresa Joaquina... Domingos Ribeiro seu irmão de que fiz este termo que assinei. (a) o Pároco Francisco Pereira Velasco. (Faro, São Pedro, B-7-166 imagem 163.)

* Escrivão da Consulado da Alfândega de Faro.

Diogo Frederico e Guiomar Teresa foram pais de 14 filhos de que só alguns sabemos a descendência. Ironicamente, a paróquia onde foram batizados, São Pedro, deverá ter previsto esta abundância pois desde o princípio que foi numerando os nascimentos. Repare-se no continuado e claro apoio e endosso dos Crispin e Doglioni.


  1. Manuel José, n. a 26 de Outubro e b. 1 de Novembro de 1807,  1.º do nome sendo padrinho o Reverendo Cónego Manuel do Couto Taveira e D. Maria Daglione e tocou com procuração seu marido Dr. Lázaro Daglione. Sem mais informação.
  2. Maria José Barr Crispin, de quem não se encontrou o assento de batismo mas que, por exclusão de numeração será a n.º 2 e de quem descendem os apelidos referidos acima no início, que se verão mais à frente.... faleceu às oito horas da manhã no n.º 20 da Rua do Terreiro do Trigo apesar de viver na Rua da Carreira, a 4 de Novembro de 1869, (com sessenta e quatro anos o que não parece ser possível!). Não fez testamento. 
  3. Teresa, n. 10 de Fevereiro de 1810 e b. a 18, e f. 19 de Dezembro de 1819. 1.ª do nome e 3.ª do matrimónio. Padrinhos Dr. Lázaro Doglioni e Dona Teresa Crispin por quem tocou seu irmão Guilherme Crispin (nota: supostamente nesta altura ainda não devia estar cego...). Sem mais informação.
  4. Carolina, n. a 8 de Julho de 1812 e b. a 26. e f. a 30 de Julho de 1813. 1.ª do nome e 4:ª do matrimónio. Padrinhos José da Maya e Dona Teresa Crispin por procuração de seu irmão Guilherme Crispin. Sem mais informação.
  5. João, n. 12 de Janeiro de 1814 e b. 22, e f. a 10 de Janeiro de 1815. 2.º(?) do nome e 5.º do matrimónio. Padrinhos José da Maya Taveira e Dona Teresa Crispin por quem tocou por procuração Dr. Lázaro Doglioni. É referido como 2.º mas não encontrei o 1.º nem há como! Sem mais informação.
  6. Lázaro Crispin, n. 3 de Dezembro de 1815 e b. a 15, 1.º do nome e 6.º do matrimónio. Padrinhos Dr. Lázaro Daglioni e sua mulher D. Ana(?) Daglioni por quem tocou Guilherme (William) Crispin. Na paróquia de São Pedro em Faro há uma Lázaro Maria Frederico, solteiro, que apadrinha um casamento em 1835 (C-6- imagem185). No processo acima referido Crispin V. Bell & Bell em 1858 é nomeado José Barr Crispin como testamenteiro e Lázaro Crispin como executor substituto, já falecidos naquela data. Se fosse o filho natural do Dr. Doglioni não teria o nome Crispin. No entanto, pode ser erro de transcrição.
  7. João Diogo Frederico Crispin, n. a 21 de Março de 1817 e b. a 8 de Abril e postos os santos óleos a 16 de Maio. 3.º(?) do nome e 7.º do matrimónio. Padrinho Reverendo Cónego Manuel do Couto Pereira Taveira e Dona Teresa Crispin por quem tocou seu irmão Guilherme Crispin. Casou a 14 de Abril de 1842 em São Pedro com Maria da Assunção (n. 1810 e f. a 26 de Março de 1869, sem filhos) filha de Veríssimo António Carlos, escrivão da Superintendência e de D. Leogarda Catarina de Sequeira (cuja mãe era de Mahón nas ilhas Baleares espanholas).  O irmão de João Diogo chamado José Diogo Frederico Crispin casou com uma irmã da cunhada Maria da Assunção. Casou uma terceira vez com Carlota Perpétua da Cruz, (dispensada em 1.º grau de afinidade ou cunhadío por ser irmã da 2.ª mulher, Maria Carolina da Cruz, em cujo óbito a 24 de Novembro de 1869 se refere explicitamente casada ad Theorum) de quem deixou uma filha. No terceiro casamento tinha o noivo-viúvo 55 anos, e com a qual teve a famosa Maria Carolina Frederico Crispin,  que usou o pseudónimo  Maria Veledanascida às 8h da manhã em São Pedro de Faro a 26 de Fevereiro de 1871 sendo seu pai proprietário e sua mãe doméstica. No livro de óbitos n.º 11 pág. 2v. imagem 3 aparece um casamento lançado por Portaria do Sr. Bispo, que tem duas datas: 26 Outubro 1866 e no fim depois de dizer que "fica cotado no lugar competente" 2 de Janeiro 1880, no qual se refere um João Diogo Frederico Crispin, proprietário, e casado e residente em Faro. 
    Assinatura de João Diogo Frederico Crispin em 1845 Faro São Pedro. 
  8. Carolina Teresa, 2.ª do nome e 8.ª do primeiro matrimónio. n. 19 de Abril de 1818 e b. a 10 de Maio. Padrinho o Dr. Lázaro Doglioni e D. Teresa Crispin por quem tocou com procuração corrente Guilherme Crispin. Casou com José António Infante Júnior. No assento de b. de José, Faro S. Pedro B-10 imagem 182, é referido como padrinho um capitão José António Infante e seu filho com o mesmo nome. Sem mais informação.
  9. Teresa, n. a 10 de Julho, b. 9 de Agosto e f. 19 de Dezembro de 1819. 2.ª do nome e 9.ª filha. Padrinhos Dr. Lázaro Doglioni e Dona Teresa Crispin por quem tocou o seu irmão Guilherme Crispin.
  10. José Diogo Frederico Crispin n. 5 de Fevereiro de 1821 e b. a 25, 10.º filho do 1.º matrimónio. Padrinho Dr. Lázaro Doglioni e Dona Teresa Crispin por procuração de Guilherme Crispin. Casou na Igreja do Convento de Santo António dos Capuchos, em Faro, a 29 de Novembro de 1843 com a irmã da sua cunhada, Januária Maria, também ela filha de Veríssimo António Carlos, escrivão da Superintendência e de D. Leogarda Catarina de Sequeira (cuja mãe era de Mahón nas ilhas Baleares espanholas). Foram pais de um filho José n. a 24 de Fevereiro de 1844 e b. a 15 de Março, 1.º filho do 1.º matrimónio de ambos. Padrinhos Ventura José Coelho de Carvalho e tocou António Joaquim Pereira de Mattos seu cunhado, casado com Maria José Barr Crispin. Segundo os dizeres da campa na igreja do Carmo, José Diogo Frederico Crispin faleceu a 26 de Maio de 1865 em Faro (Faro,SP , O-11-73/73v. assento n.º 24, imagem 6/7)Curiosamente, este óbito refere a filiação de José Diogo e inclui o apelido Crispin no nome do pai.
  11. Teresa, n. a 23 de Abril de 1822, b. a 23 de Maio e f. a 11 de Julho tudo do mesmo ano. 3.ª do nome e 11ª do matrimónio. Padrinhos Reverendo Cónego Manuel do Couto Pereira Taveira e Dona Teresa Crispin por quem tocou seu irmão Guilherme Crispin. Sem mais informação.
  12. Teresa, n. a 20 de Junho de 1823, b. a 20 de Julho, faleceu no ano seguinte de 1824 a 19 de Janeiro. 4.ª do nome e 12.ª do matrimónio. Padrinhos rev. coneg. Manuel do Couto Pereira Taveira e Dona Teresa Crispin por quem tocou o seu irmão Guilherme Crispin. Sem mais informação
  13. Teresa, n. a 20 de Julho de 1825 e b. a 21 Agosto de 1825. 5.ª do nome 13.ª do matrimónio. Padrinhos Dr. Lázaro Doglioni e Dona Teresa Crispin por quem tocou o seu irmão Guilherme Crispin. Sem mais informação.
  14. Diogo Maria Frederico Crispin, n. 26 de Abril de 1827 e b a 8 de Julho. 14.º filho !!! do 1.º matrimónio. Padrinhos Dr. Lázaro Doglioni e Dona Teresa Crispin por seu irmão Guilherme Crispin. Casou com Teresa Carolina da Silva Reis filha de Joaquim da Silva Reis e de Maria da Graça. Foram pais de dois filhos, pelo menos: Diogo, sendo o primogénito n a 12 de Novembro de 1843 sendo padrinhos António Joaquim Pereira de Matos e tocou Dr. Justino Cúmano.   
Assinatura de Diogo Maria Frederico Crispin em 1845 Faro, São Pedro

Guiomar Teresa, presumo que exausta, faleceu a 30 de Março de 1830 foi sepultada na capela de Nossa Senhora do Carmo, casada com Diogo Frederico que faleceu na Rua da Carreira com todos os Sacramentos, fez testamento, de que fiz este termo que assinei. (a) Agostinho Barradas da Silva Bravo. (Faro, SP O-4-44v. imagem 46.)


Descendência de Maria José Barr Crispin 4.a) 2), acima, de quem descendem a grande maioria dos apelidos referidos no primeiro parágrafo.

Maria José, contrariamente ao que é habitual casar na igreja de São Pedro, casa na Ermida de Nossa Senhora da Saúde que é assim referida por se encontrar na Estrada da Senhora da Saúde ainda hoje fora de Faro, já longe da cidade, mas na realidade o nome correto é Ermida de São Miguel. A Ermida de São Miguel foi uma capela particular (datada do séc. XVIII) de uma casa senhorial que pertenceu ao Capitão Bolhim. Tem retábulo de talha em estilo “rocaille” e imagens de Nossa Senhora da Saúde, do Arcanjo São Miguel e do Anjo da Guarda. Infelizmente, dado ao avançado estado de degradação do edifício, já não é possível observar estes elementos. Do lado oposto da estrada encontra-se o Cruzeiro da Ermida de São Miguel, elemento em pedra de dimensões consideráveis, composto por duas peças com base quadrangular que assenta sobre um plinto de grandes dimensões em forma de cubo com arestas seccionadas. Marcava o antigo largo da Ermida de São Miguel, em que foi construída uma pequena escola primária que posteriormente foi ocupada por um Agrupamento de Escuteiros, mas que está votada ao abandono. Em 1843 foi o Colégio arrematado em hasta-pública pelo Dr. Lázaro Doglioni, cifrando-se a transação em cerca de 3.500$00, tendo sido previamente avaliado em dois contos de réis.

Estado em que se encontra a Ermida de Nossa Senhora da Saúde ou de São Miguel, na Estrada da Senhora da Saúde em Faro (Google).

Curiosamente, Maria José Barr Crispin vem casar a 20 de Julho de 1835, com António Joaquim Pereira de Mattos simultaneamente no mesmo dia com sua irmã (dele) Maria das Dores Pereira de Mattos que casa com José Caetano Vaz Velho Sanches, cimentando uma aliança que se prolongaria na geração seguinte.  Talvez a razão para este casamento duplo seja o facto de serem gémeos.

No assento dos gémeos lê-se: Aos dezasseis dias do mês de Fevereiro de mil oitocentos e seis anos nesta igreja matriz de São Pedro desta cidade de Faro, batizei e pus os santos óleos a Maria (das Dores) segunda deste nome, que nasceu no dia 7 deste mês e ano supra, e pus os santos óleos a António (Joaquim) que foi batizado pela parteira por nascer em perigo de vida e nasceu no dia 8 deste mesmo mês e ano referido, ambos gémeos, filhos do Alferes Francisco Pereira e de sua mulher Maria Victória naturais desta cidade de Faro, primeiras núpcias de ambos netos paternos de António Pereira e Maria Teresa, e maternos de Joaquim José de Santa Ana e Joana Luísa todos naturais desta mesma cidade de Faro. Foi Padrinho de Maria o Reverendo Padre Joaquim José de Mattos e tocou com uma prenda da Senhora das Dores António Pereira, que também tocou em António com uma prenda da Senhora do Carmo sendo padrinho deste Joaquim José de Santa Ana, de que fiz este termo que assinei. (a) O Prior Encomendado José Pedro de Sousa,

Foi necessária licença do ordinário em presença do Reverendo Padre Encomendado João de Paiva Correia que celebrou ambos matrimónios em presença das quatro testemunhas Manuel José de Bivar Gomes da Costa e António Manuel de Sousa Miguéis para Maria José, e José Barr Crispin e Lázaro Doglioni para Maria das Dores Pereira de Mattos sua cunhada. Lembro que José Barr Crispin era primo irmão de Maria José e Lázaro Doglioni era casado com a irmã de José Barr Crispin, Maria Luísa Crispin (Doglioni de casada).


O casamento de Maria José com António Joaquim Pereira de Mattos diz:

Aos vinte dias do mês de Julho de mil oitocentos e cinco na ermida de Nossa Senhora da Saúde precedendo licença do ordinário, em presença do Reverendo Padre Inácio José Tavares Bello, Pároco Encomendado de São João da Venda, por licença que lhe dei in scriptis, e das testemunhas abaixo assinadas, António Manuel de Sousa Miguéis, e Manuel José Gomes, ambos casados desta cidade de Faro se receberam por palavras de presente, in facie eclesia, na forma do Sagrado Concílio Tridentino, e Constituições deste Bispado, Joaquim Pereira de Mattos, filho legítimo de Francisco Pereira de Mattos, e Maria Victória desta mesma cidade, neto paterno d' António Pereira e Maria da Conceição, neto materno de Joaquim José de Sant'Ana e Joana Luísa, com D. Maria José, solteira batizada nesta Matriz, filha legítima de Diogo Frederico Crispin e Guiomar Teresa, neta paterna de pais incógnitos e materna de Lourenço Martins e Mariana Teresa, desta mesma cidade. Por quanto havendo prestado na Câmara Eclesiástica fiança idónea aos banhos, a cuja prestação foram admitidos se lhes passou mandado de recebimento do que para constar fiz este termo que comigo assinaram o mesmo Reverendo Padre Inácio e sobreditas testemunhas. Faro dia, mês e ano supra. E receberam as bênçãos a 22 de Agosto de 1835.

O assento dos cunhados reza:
Aos vinte dias do mês de Julho de mil oitocentos e trinta e cinco anos na Ermida da Senhora da Saúde, precedendo licença do ordinário de licença in scriptis do Reverendo Prior Encomendado da Matriz de São Pedro e cidade de Faro, João de Paiva Corrêa, na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas o Doutor Lázaro Doglioni, e José Crispin, ambos residentes nesta cidade, se receberam por palavras de presente in facie eclesia, José Caetano da Silva Sanches e D. Maria das Dores Pereira de Mattos, ambos solteiros, aquele batizado na Freguesia da Sé, filho do Capitão Manuel José Sanches e D. Esperança Quintina Sanches, aquele de Faro, esta de Loulé, neto paterno de Custódio Sanches Maia, de Maia, e Caetana Alberta de Faro, e materno de José António Guimarães e Felícia Maria Joaquina de Tavira, = esta filha do Capitão Francisco Pereira de Mattos e D. Maria Vitória Pereira de Mattos, neta paterna de António Pereira e Maria da Conceição e materna de Joaquim José de Santa Ana e Joana Luísa, todos de Faro, porquanto havendo prestado na Câmara Eclesiástica fiança idónea a banhos a cuja prestação foram admitidos, se lhes passou mandado de recebimento de que para constar fiz este termo que com as testemunhas supra nomeados, e o Reverendo João José de Paiva Correia, Pároco Encomendado da Matriz de São Pedro e assinei, Faro dia, mês e ano ut supra. Receberam as bênçãos a 22 de Agosto de 1835. 





Da descendência de Maria Victória Barr Crispin Perreira de Matos que casou com Justino Cúmano houve numerosíssima descendência dos quatro filhos havidos que estão bem descritos no Geneall, de que descendem os Fialhos de Sousa Coutinho, Bivar Cúmanos, Cúmano de Bivar Weinholtz e tantos outros.

Da descendência de Teresa Carolina só Maria Vitória de Mattos Sanches teve descendência. Casou com o Dr. Virgílio Francisco Ramos Inglês e foram pais de três filhas (na realidade quatro, a mais nova das quatro a quem não foi dado nome nascida e falecida a 5 de Agosto de 1897)

  1. Maria Teresa, n. 22 de Setembro de 1888, que casou com Filipe César Augusto Baião, pais de uma única filha Maria Felipa Sanches Inglês Baião do Nascimento com numerosíssima descendência.
  2. Maria Manuela, n. 18 de Agosto de 1893, que casou com com João Trigoso do O'Ramos pais de Maria da Soledade, sem descendência e de Virgílio João Sanches Inglês Trigoso do O'Ramos com numerosa descendência.
  3. Maria Francisca, n. 9 de Agosto de 1895 que casou com João Esquível, pais de três filhos, Maria de Lurdes Sanches Inglês Esquível Freire de Andrade, com descendência, João Maria Virgílio Sanches Inglês Esquível, com descendência e Manuel Sanches Inglês Esquível, com descendência, meu pai.


Aqui são dadas inúmeras pistas para continuar a pesquisa de fontes e informação que, desnecessário será afirmar, são sempre muito importantes. Todas as contribuições são necessárias.

Para o leitor mais atento e mais conhecedor, que queira contribuir com revisão de gralhas ou correção de erros, qualquer mensagem será bem recebida. Obrigado.